A vingança – Parte Final

Foi ouvindo as palavras de Franz que meu lado sombrio foi se acalmando…

– Galego, acalme-se… Tu atingiste ao que chamam os antigos de nível bestial. Nossa família como tu sabes possui o dom da mutação que nos permite a transformação em quase todos os tipos de mamíferos, desde que o peso seja equivalente ao nosso, claro…

No mesmo instante em que ouvia aquelas palavras eu me sentia estranho, inclusive pensei que pudesse ter sido contaminado por algum vírus ou bactéria dos peludos, mas não o era. De acordo com Franz eu tinha atingido um grau maior em minhas habilidades, algo raro entre os nossos e que ocorre em poucos. Esse nível de habilidade permite ao vampiro se transformar no que lhe incomoda e naquele dia foi em um maldito peludo. Não que eu tenha virado um lupino, mas assumi algumas peculiaridades dos que me atacavam: o fedor, a força, muitos pelos, surgiram músculos em lugares que eu nunca achei que tivesse e as feições animalescas de lobo contaminaram minha humanidade.

Deixando a parte cultural de lado… Estávamos nos três e o maldito peludo. Franz se concentrou na leitura da mente do infeliz e enquanto menos esperávamos o matou com um golpe certeiro no peito. Sugou o infeliz o quanto pode e ao final de seu momento “lanchinho da noite”, limpou a boca com um guardanapo que havia em seu bolso e nos disse:

– Desculpem meus amigos eu estava com fome, pois bem, consegui algumas informações interessantes na cabeça do peludo, inclusive vi algo parecido com o colar que tu procuras Galego. Ao que tudo indica aquele colar é uma espécie de amuleto ou símbolo utilizado por um grupo de “lobas” do novo mundo, mais precisamente de um grupo isolado de nativos indígenas Navajo. Inclusive um dos peludos que exterminamos hoje tinha ligação com essas Navajo e venho para cá em busca de uma espécie de amuleto antigo que deve estar na carroça.

Fomos até o veículo e para nossa surpresa não havia nada em seu interior, Zé que é especialista em compartimentos secretos, fitou em um canto algo que parecia ser uma alavanca. Ao puxá-la um dos bancos se movimentou, o levantamos e lá estava uma caixa de chumbo negra, com apenas uma abertura por onde deveria entrar uma espécie de chave.

Pensei comigo: índios, peludos, caixa secreta… O que diabos tudo isso tem a ver com a morte de minha amada Su. As coisas estão tomando um rumo diferente. Não estamos mais fazendo vingança, estamos atrás de uma quadrilha…

Isso mesmo exclamou Franz olhando para mim. Maldito leitor de mentes, disse eu. Zé que estava perdido comenta:

– há há há  vamos me contem…

-Eu estava pensando que esses malditos peludos fazem parte de alguma facção que rouba artefatos. E isto está fugindo do objetivo inicial de nossa vinda para cá.

Franz que nunca deixa o seu lado metódico de lado nos fala:

– Ok Senhores temos algo que eles querem e com certeza virão atrás de nós, podemos ficar aqui esperando e talvez morrer ou ir atrás dessas vadias peludas e vingar a morte de nossa querida Suelen.

Eu que estou sempre ansioso por uma boa aventura digo:

– Humm, eu voto em irmos atrás delas e as pegarmos em seus próprios canis. Essa vadia que acabou com Suelen, também fazia parte daquele maldito pelotão que nos expulsou de nossas casas em Berlim e está mais do que na hora de ir para o além. Se pudermos acabar com seus negócios é consequência, mas vamos manter o foco. Não somos os salvadores do mundo, nem temos tempo para isso. (naquela época eu não queria saber de ajudar os outros e apenas tinha em mente vingar a morte de Su).

Após um discurso que inflamou meus companheiros, resolvemos ir para os EUA. No Caminho lembrei-me de um velho amigo de Franz chamado Hector, cria do velho Barba Negra e um dos maiores piratas que já conheci. Ele também era vampiro e nos levou confortavelmente no seu barco até o sul do Texas. Onde tivemos que seguir a pé por muitos quilômetros até conseguir uma boa carroça fechada e um par de cavalos.

Os EUA enfrentavam um período pós-guerra civis, muitas cidades haviam sido destruídas, tantas outras se tornaram fantasmas e então foi até fácil circularmos por todos os lados até que se conseguissem boas informações sobre a possível localização da maldita tribo.

O ouro que carregávamos conosco valia muito, e nos permitiu viver como reis durante certo tempo… Equipamos-nos, fizemos alguns mercenários de vassalos e fomos para guerra. Quem não soubesse dos antecedentes acharia que aquilo tudo seria um massacre dos clássicos: Índios versus Cowboys. Triste realidade, tudo seria muito pior…

Hospedamos-nos em uma cidade próxima a tribo, que se não me falha a memória chamava-se Amarillo. Na época esta cidade tinha mais de 25000 pessoas então não foi difícil nos escondermos por uns tempos.

Na cidade descobrimos onde se escondiam as peludas, inclusive soubemos do ódio de alguns cidadãos para com elas. Muitos acreditavam na lenda de que elas eram feiticeiras ligadas aos coiotes que viviam nas redondezas e que algumas crianças que haviam desaparecido, foram utilizadas em rituais macabros. Pobres ignorantes, mal sabiam o que realmente as bestas faziam com as crianças. Carne fresca…

Decidimos que atacaríamos, mas que primeiro era preciso espionar para ver onde estávamos pisando. Isto era uma missão para o invisível Zé, que se encobriu e levou consigo mais um vassalo. Já era quase manhã quando ouço batidas leves na porta do quarto. Era Zé, preocupado…

– Eles são muitos… não temos a menor chance, mesmo que não sejam todos peludos, são mais de 30 somente naquele acampamento. Somos apenas 3 vampiros e alguns vassalos.

Pensei por um instante e resolvi chamar Franz e lhe contei o que Zé havia visto. Decidimos armar uma emboscada, contar um pouco com a sorte e com o poder da pólvora e do fogo. Como se dizia naquela época “nos armamos até os dentes” fizemos algumas balas de prata e na quarta noite fomos encobertos por Zé e invisivelmente colocamos fogo nas ocas feitas de couro, peles e madeira. Era muita correria, gritos, gente chorando e sim! Lá estavam as peludas. Elas se transformaram em nossa frente… Babavam, fediam e uivavam tentando nos amedrontar. Disparamos vários tiros, que se misturaram com a fumaça e transformaram o local no perfeito inferno. Depois de algo em torno de 10 min. Não senti mais a presença das lobas… O silêncio era apenas quebrado pelos estalos do fogo que queimava tudo naquele acampamento macabro.

Fiquei por alguns instantes extasiado e observando aqueles corpos grotescos se desfazerem, meus olhos não piscavam e naquele instante percebi que depois de tudo o que fizemos eu ainda não tinha esquecido a morte de Suelen. Franz me puxou, subimos nos cavalos e voltamos para o hotel.

***

Depois de alguns meses eu estava novamente na velha Nossa Senhora do Desterro. Zé e Franz voltaram para a Europa atrás de alguém que soubesse algo da caixa de chumbo e eu estava de férias na minha querida ilha. Apesar de tudo, os pesadelos tinham acabado, mas eu ainda estava sem um objetivo concreto. Precisava de algo que me fizesse esquecer ou amenizar a lembrança de Suelen. Até que em uma das noites eu resolvi vagar pela praça XV de novembro. Um dos principais pontos de encontro da juventude na época. Eu não esperava ver nada além de alguns poucos desocupados, mas lá ocorreria algo que mudaria minha não-vida para sempre.

Uma velhinha, a senhora Götter voltava para casa depois de um longo dia de orações na catedral, quando teve sua bolsa roubada por um infeliz, que correu em direção ao trapiche que ficava próximo ao mercado público. Como eu estava com fome não pensei duas vezes e corri atrás do meliante. Ao me aproximar agarrei-o pelo braço, ação que deslocou seu ombro e o fez gemer de dor. Tapei a sua boca com uma das mãos e com a outra o imobilizei. Tomei a sua vida… Esfaqueei sua garganta e o joguei ao mar.

Devolvi a bolsa para a velhinha, que me agradeceu e nem reparou na minha camisa suja de sangue, apenas me perguntando se eu estava bem… Foi uma sensação ótima! Eu tinha feito o bem para alguém e o mais importante: Tinha livrado minha cabeça dos sentimentos sobre Suelen. O corpo do infeliz foi encontrado logo pela manhã por alguns pescadores e por sorte a senhora Götter guardou segredo até o fim de sua vida…

Depois daquele momento eu encontrei um novo motivo para continuar com minha não-vida. As lembranças ruins se ocultaram no fundo da minha alma e desde então eu tenho um motivo para matar, eu tenho um motivo para ser o que sou e principalmente tenho um motivo para a vingança!

Ferdinand W. di Vittore

Nascido em 1827, foi transformado em vampiro com 25 anos em 1852, enquanto ainda vivia na pequena cidade de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, Santa Catarina – Brasil. Criou este site em 2008 com o objetivo de divulgar as ideias do seu clã, instituição fraternal em que ele, seu mestre e alguns amigos mais chegados pertencem. Além disso ele também publica aqui e no vampir.com.br histórias do seu cotidiano. Está quase sempre bem humorado e nos últimos anos possui um projeto chamado “Os escolhidos” em parceria com Hector. No qual eles “ajudam” a polícia e a sociedade na resolução de crimes hediondos. Ferdinand também ocupa suas noites com a escrita e recentemente publicou um livro com suas memórias: http://my.w.tt/UiNb/gz325qd62s

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1 Resultado

  1. fabiana lee disse:

    pra vc sr vampiro, que seja , que gosto tem o sangue dessas criaturas horrendas