Fui traído! E agora? – pt5

Era mais ou menos duas da manhã quando ouvi barulho de carro. Na sequencia um dos funcionários da fazenda veio ao meu encontro dizendo que o “doutor Franz” havia retornado junto de muitas mulheres.

– Uai, hoje a festa vai ser boa patrão!

– Nem me fala Alcides, hoje a noite vai ser longa! Aliás, avise o pessoal para preparar os cavalos que hoje vamos para a casa do mato.

– Sim sinhô!

Franz estava ao volante, Pepe ao seu lado na frente da caminhonete e no banco de trás estavam Becky e a maldita loira safada. Ela estava visivelmente abalada, seu rosto trazia alguns hematomas e cicatrizes, o que indicava que ela resistiu o quanto pôde. Eu estava tão ansioso, que nem quis saber de como eles haviam a capturado. Porém, fiz questão de fazer uma social e dei boas vindas a todos antes de dar inicio aos trabalhos daquela noite.

– Becky e Pepe levem essa puta lá para a sala e nos aguardem. Preciso trocar algumas ideias com meu irmão.

Franz havia me pedido um minuto de conversa longe das outras por telepatia. Apesar de seu jeito chucro e às vezes irresponsável, ele é mais velho e sua opinião é muito importante nos negócios do clã.

– Maninho, ela estava junto de outros cinco caras. Estavam bem armados e aparentemente eram mercenários contratados para protegê-la. Foi bacana ver as cabeças rolando e alguns tentando fugir pelas janelas da casinha de subúrbio.

– Não deixaram provas ne?

– Obvio, que não. Não sobrevivi quase 500 anos fazendo besteira. Bom, o que eu quero dizer é que vasculhei a cabeça dela e descobri quem foram os mandantes. Como, já havíamos descoberto eram aqueles dois da tal […].

– Relaxa que o Hector e o Eliot vão dar um fim adequado para eles.

– Sim sim sim, só que eu queria te falar da loira. Eu percebi lendo a cabeças dela que se arrependeu de uma forma bem sincera.

– Tais de brincadeira ne?

– Não, pior que não. Ela é muito gostosa para ser sacrificada…

Interrompi-o abruptamente com uma gargalhada alta e que provavelmente foi ouvida de dentro de casa.

– Sabes que eu sempre sigo aquela teoria do general Sun Tzu, no sentido de que vale a pena eliminar um soldado em prol da obediência dos demais. Tem muita gente nova no clã e que precisa sentir uma liderança forte vinda de mim.

– Eu sei, eu sei, eu sei… Foi só uma opinião. As vezes eu acho que tu és o próprio filho do barão e não apenas um parente distante… Enfim, faça o que achar melhor.

– Tá vamos para dentro que já são duas e poucos e até chegarmos a casa do mato…

Nesse momento foi Franz que me interrompeu.

– Casa do mato e hoje? Ah para irmão, vamos amanhã então. As garotas e eu estamos cansados.

– Franz, ela vai ficar mais uma noite conosco. Não quero ver as garotas ou tu se apegando mais com aquela puta! Vai ser rápido, prometo!

– Ok, mas tu vais ficar me devendo uma boa depois dessa maninho.

Apesar de nossa breve discussão Franz acolheu minha ideia e entramos na casa grande. As garotas estava sentadas no sofá, mudas e com olhar fixo para saber o que iriamos fazer. Deb estava cabisbaixa, seu olhar não subia além de meus joelhos e provavelmente não conseguiria me olhar nos olhos, mesmo que eu lhe obrigasse. Diante disso, comuniquei o que iriamos fazer.

– Vocês querem trocar de roupa ou colocar algo mais confortável? Vamos pegar os cavalos e fazer uma trilha de uns 30 minutos mata adentro. Franz, provavelmente irá na forma de lobo e eu vou levar essa desgraçada noutro cavalo.

– Tem que ser hoje? – Perguntou Becky.

– Sim e se não tiveres nenhum motivo relevante, gostaria que fossemos hoje mesmo para lá.

– Ok ok, sem problemas Fê.

Pepe decidiu que trocaria de roupas e Becky decidiu fazer o mesmo. Franz foi preparar uma mochila para que eu levasse suas roupas e eu fiquei na sala com a infeliz. Evitei ao máximo qualquer contato direto com ela, mas fui surpreendido por um choroso, delicado e sincero:

– Desculpa Fê!

Assim como um pai que vê sua filha fazendo cara de choro e arrependida por algo de errado que tenha feito, eu fiquei calado por alguns segundos.  Decidi que não lhe proferiria nenhum pio, mas ela começou a chorar baixinho, até o ponto que começou a soluçar e se ajoelhou aos meus pés pedindo piedade de sua alma. Naquele momento eu ainda tinha muita vontade de lhe dizer algo do tipo “além do que já vos tenho anunciado, seja anátema”, mas ponderei. Relembrei de quantas “merdas” eu já havia feito mundo afora e do quanto Georg foi Benevolente.

Mas ela, o que ela havia feito era diferente, ela havia jogado informações confidenciais, inclusive de meu clã, para espiões industriais. Ela era uma Ghoul e não deveria ter feito isso, eu pensava comigo. Foi quando Franz voltou a sala, viu a cena patética e disse com ar de desdém:

– Ah então agora tu se arrepende?  Fomos baleados, tivemos de matar inocentes para conseguir informações tuas e agora isso. Tenha o favor… Ferdinand se quiser arranco a cabeça dela aqui mesmo e agora…

– Calma Franz, estou pensando no que tu me disse antes, a opinião de Deb não conta em nada agora. Será que poderias fazer mais uma “leitura” para mim?

Falei para ele por telepatia: “Descubra quem pediu as informações, veja como que o meu laço de sangue com ela foi rompido e veja se ela realmente pode ter uma segunda chance conosco”.

Franz foi até a loira, que ainda soluçava e chorava feito uma criança e olhou fixamente para seus olhos. Fitou-os por algum tempo e até que ela parou de chorar. A esta altura da noite Pepe e Becky já haviam retornado para a sala e impacientemente aguardamos o relatório de Franz. Quando finalmente depois de alguns instantes ele se virou para nós e disse:

– Nem todos merecem uma segunda chance…

Ferdinand W. di Vittore

Nascido em 1827, foi transformado em vampiro com 25 anos em 1852, enquanto ainda vivia na pequena cidade de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, Santa Catarina – Brasil. Criou este site em 2008 com o objetivo de divulgar as ideias do seu clã, instituição fraternal em que ele, seu mestre e alguns amigos mais chegados pertencem. Além disso ele também publica aqui e no vampir.com.br histórias do seu cotidiano. Está quase sempre bem humorado e nos últimos anos possui um projeto chamado “Os escolhidos” em parceria com Hector. No qual eles “ajudam” a polícia e a sociedade na resolução de crimes hediondos. Ferdinand também ocupa suas noites com a escrita e recentemente publicou um livro com suas memórias: http://my.w.tt/UiNb/gz325qd62s

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5 Resultados

  1. Ana Julia Petrova disse:

    Meu Deus, finalmente ela apareceu ‘arrependida’, talvez, mas o que importa são quais informações Franz te deu e que você passará para nós!! Estou ansiosa para saber como termina essa história junto com a vida de Deb!!

  2. Ana disse:

    Ela inicialmente arrependeu-se, mas então ficou sem se arrepender….
    Foi mau o que ela fez…

  3. Gabriela disse:

    Olá pessoal aos poucos estou voltando ao blog e me interagindo com as histórias aqui contadas 🙂
    A história está interessantes, em breve saberemos se nossos queridos vampiros (aqui do blog) tem a compaixão e piedades que os humanos não possuem, infelizmente vivemos em uma sociedade onde coisas desse tipo foram extintas e sentir dó ou se colocar no lugar do próximo foram esquecidas.

    PS: Não estou generalizando, ainda tenho fé na humanidade e sei que da mesma forma que existe pessoas boas, existem as ruins da mesma formas que existem vampiros bons e outros ruins.

  4. Ju13 disse:

    Nossa que anciedade para saber oque vai acontecer com ela …