O retorno – pt1

Pisar nestes mesmos locais depois de tanto tempo ainda me parece estranho. Me afastar dos clãs me fez perceber o quanto eu me afastei de uma parte de mim mesma. Na vida de todo mundo, acredito que devemos as vezes nos afastar até daquilo que consideramos importante para poder assim respirar, ter um tempo para nossa limpeza interior e começar a caminhar tudo de novo com mais clareza.  

Afinal cabeça turva nunca foi uma boa conselheira para ninguém. 

Depois da conversa com Ferdinand no qual eu rasguei meu coração e agora tento catar os pedaços, sinto que ele está cada vez mais preocupado comigo… Entre as mensagens e conversas por telefone (evitando as vídeo chamadas que entregam o que eu penso sem ele me perguntar e que agora ele vai descobrir) o vampiro não tenta esconder sua preocupação, ainda mais agora que sabe para onde eu estava indo.  

  • Lili, cara, tens certeza? Sei que tens teus deveres lá, mas sinto que ainda precisa dar uma segurada, se recuperar… 
  • Fê, apesar de tudo eu ainda tenho autoridade lá dentro, o clã respeita minhas decisões e na real, o que são estes poucos anos fora, perto da idade dos vampiros de lá? Não passam de meros dias para eles. 
  • Ok, apesar de não concordar… Enfim, vê se não faz nenhuma loucura… 
  • Cara quanta preocupação, eu disse que eu “te amo” e não que “fiquei retardada” … 
  • Sei, já tô sentindo que vais me dar dor de cabeça e olha que eu sou um vampiro. 
  • Da pra você relaxar? Eu vou ficar bem. 
  • Tá, mas se estiver numa situação ruim me chama e vê se não entras na toca de novo! 
  • Pode deixar. Beijos Fê. 
  • Te cuida Lili. 

Ao relembrar minha conversa com ele, me recordo de que o Fê não era o único vampiro que me decifrava no olhar, ao longe com um grande sorriso branco e seus proeminentes caninos de vampiro, vejo Trevor, um dos meus maiores portos seguros caminhando em minha direção enquanto eu entrava pelos grandes portões do nosso clã, o vampiro conhecido por sua óbvia altura, até mais alto que o Fê, seu bigode por fazer e o senso de humor mais sarcástico que o meu, me era nesse instante o abraço de que tanto precisava, o conforto de que tanto almejei por estes dias até chegar aqui novamente. 

  • Então a nossa querida general está de volta! 
  • Não precisa me lembrar da minha patente neste local… Quanto tempo meu querido T! 
  • Lili, saiu da toca finalmente! Eu senti muito a tua falta. 

Vocês identificam cheiros com as pessoas que você gosta? Eu faço isso desde quando era humana e depois quando me tornei vampira este pequeno fato me acompanhou na minha vida imortal. Charuto cubano, sangue e o tom amadeirado do perfume do meu querido Trevor tomavam conta dos meus sentidos. Apesar de ser alta, ele assim como o Fê, me faziam sentir abraçada e protegida por completo. 

  • E como foram as coisas lá como galegão galanteador? 
  • Podemos deixar essa conversa para depois? Ainda estou tentando catar todos os cacos. 
  • Entendi, não foi uma conversa animadora… 
  • Gostaria de dizer que sim, porém, melhor deixar esse assunto para depois, bem depois. 
  • Lili, acredito que a conversa aqui também não seja das melhores desde que você deu um fora no vampirão daqui e saiu para se isolar de tudo… 

Eu sai para me isolar de tudo e sinceramente estar aqui entre as paredes da Ordem me fez recordar muitas coisas, inclusive o fato de que eu jamais veria meu grande amigo Steve de novo… A história da morte dele foi um baque e enquanto estou na sala do conselho da Ordem ao observar a parede de homenagem para os que se foram, lá está Steve olhando para mim como quem diz “Não fraqueja cara, você é melhor que tudo isso!”. Sim ele estava lá e pareceu que eu retrocedi alguns anos atrás revivendo o dia da sua morte. O corte que recebi em minhas costas naquela noite fatídica, deixaram uma cicatriz no meio das minhas tatuagens. Meu amigo lobo deve estar correndo por entre as estrelas, uivando noite a dentro. Ainda tenho o vídeo dele guardado no meu drive, sorrindo e confuso em como mexer na porcaria do celular. 

Steve foi homenageado pela Ordem por ter me protegido… Por alguns minutos fiquei de pé observado a imagem dele até sentir um poder bem conhecido por mim, sim a presença dele era gigantesca e quando me dei por conta ao virar, lá estava ele de braços dados com uma vampira ruiva muito bonita que logo foi deixada um pouco de lado enquanto o vampiro dos cabelos platinados caminhava até mim e Trevor. 

  • Vejo que continua a mesma, apesar dos longos cabelos negros, que lhe caem muito bem aliás; e seu olhar mudou, não parece a mesma teimosa vampira que fugiu daqui como uma criança arisca. 
  • Jonathan, vejo que não conseguiu me esquecer. Corrigindo, eu não fugi, apenas fui embora. 
  • Podia ter ficado, mas entendo que precisava desse seu tempo sabático.  
  • É bom te ver novamente também se esse é teu jeito de se expressar. 

Jonathan sorriu, continuava lindíssimo de chegar a doer os olhos. Como sempre ele tocava meu cabelo delicadamente e analisava cada centímetro meu enquanto eu observava o olhar fulminante de sua acompanhante.  

  •  Creio que tenha sentido falta das suas velhas amigas. 

De forma elegante o vampiro foi até a mesa no meio daquela grandiosa sala e com maestria retirou da bainha as minhas duas katanas que me acompanham desde o começo de tudo. Ao segurar minhas antigas e majestosas espadas que estavam mais afiadas do que nunca, senti um pouco daquela guerreira adormecida por estes anos de distanciamento, reaparecer. 

  • Minhas espadas, posso saber o motivo? 
  • Afinal voltou para sua primeira morada imortal, deves carregar seu armamento e retornar ao teu posto minha cara. Aliás, seria ótimo para você, te ajudaria a esquecer o vampiro que roubou teu coração. Não vejo utilidade na tua vida ao se lamuriar por conta disso. 

Pelo visto ele sabia o que tinha acontecido e seu olhar mostrou nitidamente que não gostava nada da novidade. Ao retornar para sua acompanhante, agora sem dar as mãos para a vampira que parecia frustrada, Jonathan ainda de costas para mim deu um último recado. 

  • Teus aposentos estão prontos, nos vemos em uma hora nesta mesma sala pois, assuntos importantes nos aguardam. Não se atrase Lilian. 

Senti que eu não fui até lá apenas para matar as saudades. 

3 comentários

  1. Lili, você escreve tão bem.🌹 Quando crescer quero conseguir escrever tão maravilhosamente bem como você. Através da forma como você descreveu este episódio, conseguiu passar um pouco do emaranhado de sensações que você estava sentindo.

    Não entendo porque todos os homens acham que quando uma mulher se apaixona, ela perde o senso crítico. Achei fofo a preocupação dele contigo.

    Ansiosa para mais capítulos. 😍

  2. Oiie sumi, mas cá estou de novo, acho fofo o jeito que o fer se preocupa contigo, mas afinal tens que seguir tua vida né, a gente tenta dar um tempo mas o tempo sempre da um jeito de nos lembrar dos nossos deveres, afinal… que tudo de certo nessa nova empreitada, não tão nova assim rsrs… ansiosa para os próximos capítulos, lembrei da selene do anjos da noite … 🤗

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