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  • Depósitos de sangue

    Depósitos de sangue

    Estava tranquilo em casa vendo alguns e-mails, gravando um podcast com o som ligado e preparando uma jantinha leve para o meu amor. Acontece que ao longe o maldito perfume de plasma a precedeu a sua chegada. A medida que ela se aproximava do cômodo onde eu estava era nítido que havia acontecido alguma coisa. Abri a porta e ao longe ouço a descarga do banheiro. Falo:

    –       Boa noite amore tudo bem?

    Ela então responde com uma voz que deixa perceptível o seu cansaço entrelaçado com um sofrimento comedido:

    –       Oi bebê… Nossa quase que eu passo vergonha no ônibus…

    Antes que dela terminar o seu rito, me vêm a cabeça o que havia ocorrido. Mais que depressa sio de perto e vou para a varanda mudar os ares. Por mais que nossa respiração não seja automática igual aos humanos, nesse momento ela insiste em farejar o que havia sentido anteriormente… Maldito demônio sempre me surge nas horas mais inoportunas…

    Enquanto eu me acalmava, coisa rápida de uns 3 min ela me surge dando um abraço caloroso pelas costas e me fala.

    –       Nossa amor que dia… Ixe está nos teus dias de novo?

    –       Pois então, (respondo eu) estava tentando permanecer mais alguns dias sem ir atrás de comida, mas acho que vou ter de sair hoje. Os teus “dias” romperam minha rotina, melhor eu fazer algo para não termos nenhum contratempo.

    Cara que ódio que tenho de mim nessas horas. Que ódio que eu tenho quando ela me olha com aquela carinha de pena… Que ódio…

    Fiz algumas ligações e lá fui eu para um Riv`s. Riv`s é abreviação de Red River, alguns chama de bar outros de depósito, pra mim é um grande problema. Pois o local é mantido por uma máfia vampiresca. Um sub grupo de sanguessugas que tem contatos no submundo e que tem nesses lugares uma fonte de renda, para manter os seus negócios.

    O Riv`s mais perto de onde estamos fica a uns 20 min de moto e lá fui eu. Tendo em vista que é um local frequentado pela escória de nossa sociedade eu fui preparado da mesma forma como se estivesse indo a uma caçada.

    Paro a moto, desta vez a Harley em uma rua próxima e vou para o local a pé. Uma porta marrom enferrujada em meio a tantas outras oculta um mundo desconhecido a maioria dos transeuntes que alí passavam. Dou três batidas e logo ouço uma voz grave no interfone: “Quem?”.

    Respondo a senha e a porta é destrancada. Desço uma escadaria escura e ao final do corredor uma outra porta também de metal é aberta, mas esta é lenta e dá a vontade de empurrar.

    Espero que a porta se abra e o local vai ficando visível. Algumas mesas, um modesto palco com um pole dance. Alguns vampiros se misturam a alguns carniçais e humanos. Gente de todos tipo mas em sua maioria marginais. O local devia ter algo em torno de uns 100 indivíduos. Algumas garçonetes que mais pareciam putas de filme policial serviam as mesas e em um balcão duas meninas faziam o papel de barman. Aproximo-me do balcão e peço logo de cara o que eu queria:

    –       Sangue!

    Ela chama a outra menina do balcão e esta por sua vez me leva até um quarto. Neste quarto, longe do barulho da música alta ela me fala das opções:

    –       Gatinho, cê quer bolsa ou uma das garotas?

    Estava esquecendo de comentar que neste lugar acontece outro tipo de prostituição. Ali algumas pessoas vendem o seu próprio sangue aos que tiverem dinheiro para pagar. Confesso que isso é sempre uma proposta tentadora, mas eu resolvi ficar com as bolsas mesmo.

    Então a garota, sai e depois de alguns minutos volta com uma sacola térmica. Nela 4 bolsas de sangue, um copo e guardanapo vermelho de pano. Dou-lhe o dinheiro que deve ser em espécie e faço o meu desjejum.

    Quem bom seria se eu sempre pudesse fazer isso não é mesmo? O Problema é que o dinheiro que eu dei provavelmente vai financiar algum grande assalto, pode ser usado para armar gangues, para comprar drogas. Sem contar o fato de que um Riv nunca é um lugar seguro. Quase sempre são feitas batidas policiais, muitas histórias são contadas de caçadores e até peludos que invadiram esses lugares e não deixaram nada nem ninguém vivo…

    Por sorte volta para casa tranquilo e termino minha noite na cama tranquilo com a patroa. Ela saiu agora a pouco e resolvi escrever para não perder os detalhes de mais essa minha incursão no mundo oculto que existe por trás do que os humanos acham que é realidade.

  • Bate-papo com vampiros em São Paulo

    Bate-papo com vampiros em São Paulo

    Parece que foi ontem que eu conheci o Alberto, um vampiro legal, amigo do Franz e que mora em Sampa. Não precisei nem ligar e o mala já sabia que eu estava bem perto da sua “casinha”. Às vezes fico receoso com esses sensitivos, mas me lembro que estão do nosso lado e fico um pouco melhor.

    Sua reação foi à mesma que a de quase todos os outros: Por que diabos tu ainda não transformou ela em um de nos? Relaxa bicho, tudo tem sua hora (eu respondi) … Beth deu uma risadinha de canto de boca, mas ficou de boa. Acho que já se acostumou com a pressão, mas eu já disse que tudo tem sua hora e, além disso, para transformar alguém em vampiro é preciso aquele velho ritual e suas conjunções astrais. Se não é óbvio que nossa espécie seria bem mais populosa.

    Enquanto estive na bendita selva de pedra, fiquei hospedado nesse vampiro. O local era uma mistura de modernidade com aspectos do século passado e retrasado. Acredita que ele ainda ouve música em um velho phonografo que precisa dar corda? Tudo bem, eu dei de presente pra ele um mp3 player, vamos ver se ele adere a essa moda que também já é velha…

    Esse negócio de moda, aliás, é algo complicado entre os velhos, eu mesmo tenho um quarto cheio de tranqueiras e relíquias. Deve ser do comportamento humano se agarrar a objetos que lhe são convenientes ou importantes em determinados momentos.

    Sobre tudo, a estadia perto do Alberto foi importante para eu reaver alguns contatos em meio a nossa sociedade. Eu já disse que minha família vive a parte deles, mas é bom sempre dar uma espiadela, vai que algum velho esteja acordando ou algum outro imortal esteja aprontando alguma.

    Sábado à noite pedi para Beth dar uma voltinha e fiquei na casa esperando as “visitas”. O papo durou algumas horas, nos apresentamos e infelizmente o único conhecido era o Alberto. Todos os outros eram novos e tinham menos de 50 anos como vampiros, ou seja, não vi nada de novo e até falei mais do que devia. No geral reuniões ou bate papos entre vampiros são chatos, coisa de velho tipo: Ahh teve aquele dia que eu quase morri ficando acordado até mais tarde, ou poxa eu era bom nisso, ou ainda aquela época era melhor, bons tempos…

    Contudo, o que parecia perdido se tornou uma noite boa quando concordei em fazer um pequeno workshop prático. Fomos para o centro de Sampa, pedi para que ficassem em um prédio em uma transversal a Rua José Paulino e pratiquei um ataque. Fiz algo simples, metamorfoseei-me (existe essa palavra?) em um cachorro e fiquei sentado esperando o movimento.

    Muitas pessoas passaram, algumas me olharam e quando estava perto das 3:30 (eu acho) vi duas putas noutro lado da rua. Aproximei-me devagar para dar confiança e fiquei por ali na minha. Umas delas se aproximou, disse que eu era bonito e me fez carinho cabeça.(O pior é que foi bom) Não precisei esperar muito para que algum cliente aparecesse e me deixasse sozinho com uma delas. Ninguém além de nos, vários cantos escuros e eu não estava com fome… Estava feita a lição…

    Um pouco de sorte, muita observação e sempre mantendo a calma. Certo crianças?