A chibata acertava as costas do Doutor arrancando nacos de carne de suas costas. Sempre que açoitava seu mestre utilizando uma chibata de tiras de couro, com lâminas de barbear presas, Alessandra ficava impressionada com as feridas feias que provocava bem como com a velocidade que elas regeneravam nas costas do Doutor, a ponto da pele sempre parecer lisa e branca como a de uma criança de um ano de idade. Um sangue poderoso – pensou Alessandra, invejando seu senhor.

_Um dia você conseguirá o mesmo minha menina. – disse o Doutor lendo os pensamentos de sua acólita, sabendo que isso irritava profundamente Alessandra, já que violava sua mente e invadia os confins mais secretos de sua privacidade – Por hora contente-se em bater com mais força, vamos sua pequena cadelinha! Com força!

Alessandra reuniu toda a força de seus jovens músculos e desferiu uma chibatada brutal, que fez com que as lâminas enterrassem fundo nas costas do Doutor, que gritou em total êxtase. A dor lhe era tão reveladora!

A dor nos é tão natural quanto a vida e a morte – repetira ele mentalmente a si mesmo, quase que como um mantra, que o Doutor entoava há quase um século de estudos – ao nascer rasgamos nossa mãe, provocando-lhe a dor do parto, ao fazer isso somos expostos ao mundo, a uma vida de dor, e ao morrer, a dor, nossa eterna companheira está ao nosso lado! Os humanos são tão tolos, não entendem a dor – a chibata rasgava-lhe a carne, fazendo com que pedaços da mesma grudassem na parede do cubículo sujo que eles se encontravam, o mesmo que o Doutor usara para iniciar Alessandra, pedaços estes que viravam cinzas poucos segundos depois, pois eram arrancados do corpo imortal de um morto-vivo – A dor revela!

_A dor revela! – Gritou o Doutor – Mãe! – Clamou.

A mente do Doutor o levou até sua infância, em uma casa de campo, na beira da estrada na Bavária. Era um casarão feito de pedra, com telhas cobertas de musgo, que pertencera à família Von Bastian desde 1815, quando o bisavô de Otto, o Doutor, comprou de um barão que utilizava a residência como casa de campo. Mas o ano que o doutor foi remetido foi o ano de 1920, e logo veio em sua mente os gritos de Hirma Von Bastian, sua mãe.

_Otto! Venha cá, agora! – Ouviu o pequeno Otto, sentindo os pêlos de sua nuca arrepiarem, tal qual um cervo ao ouvir o uivo noturno de um lobo.

Em sua mente, o Doutor podia visualizar com perfeição o quarto de orações de Hirma, uma saleta escura, iluminada debilmente por velas grandes e pesadas, que Hirma gastava uma boa quantia em dinheiro para mantê-las. Diante de uma pesada imagem da Santa Cruz encontrava-se Hirma, o corpo imenso e gordo como um barril, o vestido velho de onde brotavam pedaços de carne e gordura, os cabelos louros e secos como palha, uma verruga bulbosa na bochecha esquerda, de onde brotavam um ou dois fios de pêlos duros, de fato, a mãe do Doutor estava longe de ser uma beldade, na verdade ela mais parecia o fruto de um pesadelo infantil, e talvez até mesmo fosse. Mas fora Hirma quem iniciara o Doutor em seu tormento, e por isso ele lhe era grato, foi a gratidão e não o ódio que guiara o bisturi do Doutor na garganta velha de sua mãe, anos mais tarde. E por essa gratidão, Otto achava que a mãe era a criatura mais adorável de Deus, um anjo.

_Sim, mãe? – Disse Otto, relutante ao se ajoelhar do lado da mãe.

_Varreu todos os quartos? – Perguntou Hirma.

_Sim senhora… – Respondeu Otto.

_Trouxe a lenha do depósito para a cozinha?

_Sim senhora… – Respondeu o Doutor, acariciando suas mãos esfoladas, e lembrando do frio que sentiu por ficar a manhã inteira caminhando na neve, trazendo lenha para aquecer a casa, um trabalho que seu irmão mais velho certamente teria feito mais rápido, mas Hirma insistia que Otto, o caçula, fosse o único a trabalhar na casa.

_Sua irmã me disse que não trouxe lenha o suficiente… Quer que eu e seus irmãos morramos de frio aqui dentro, Ottinho? – Perguntou Hirma de forma delicada, se Otto não carregasse várias marcas das surras da mãe ele até não teria percebido o tom de ameaça lupina que havia no diminutivo de seu nome.

_Eu carreguei a manhã inteira mamãe, e a senhora disse para eu varrer a… – Defendeu-se Otto, mas teve seu argumento interrompido pelo violento tapa de irmã, que pegou Otto de surpresa arremessando-o contra o chão.

_Seu bastardinho desgraçado! Cria do excremento de Satã! Quer matar sua mãe e seus irmãos de frio seu sodomitazinho? Baixe as calças agora, vou te ensinar uma lição! – Gritou Hirma em uma explosão de fúria, no intuito de disciplinar o amado filho.

Otto arriou as calças velhas e reclinou-se sobre o pequeno altar de velas de Hirma, o menino fechou bem os olhos e mordeu a língua, as lágrimas já vertendo dos olhos antes mesmo que Hirma desferisse o primeiro golpe. Hirma levantou de forma dolorosa seu corpo pesado, dirigiu-se até um altar secundário onde a bíblia sagrada repousava e onde o retrato de Hans Von Bastian, o pai de Otto, soldado morto no dever, ocupava posição de honra. Abrindo uma gaveta Hirma retirou uma haste de madeira onde na ponta pequenas tiras de couro prendiam galhos secos da planta coroa de cristo, com seus espinhos compridos, muitos deles já com manchas de sangue velho, do garoto.

_Você é um pecador miserável Ottinho, você não me deixa escolha, senão lhe punir. Tentar matar sua mãe e seus irmãos de frio! Foi isso que você aprendeu Ottinho? – Disse Hirma aproximando-se do filho.

_Não mamãe! Não! Por favor… – Implorou Otto, então com seis anos de idade…