Londres, 1866.

Julie Davonz, no auge de seus 21 anos de idade, era do tipo de mulher que não esperava acontecer. Sempre determinada e forte, corria atrás de seus desejos e lutava por seus ideais. Esbanjava sensualidade e um ar superior, o que muitas vezes acabava causando medo, principalmente aos homens.

Já havia algum tempo que deixara o povoado de Brighton onde havia nascido e morava com sua mãe, para correr atrás de seus sonhos e uma nova vida na cidade grande. No entanto, como as coisas às vezes acabam não saindo como planejado, o jeito foi se virar da maneira que pode.

Morando sozinha e vendo o último salário, fruto de seu árduo trabalho de empregada, se desfazendo rapidamente, ela resolveu procurar um novo emprego pela cidade. A busca durou certo tempo, porém nada lhe agradava, até que soube de algumas vagas em bordéis. Neste período do sec. XIX, Londres era o centro da prostituição, e que alias na verdade, tinha muito a cara dela. Tendo em vista isso e toda a disposição da moça, digamos que no primeiro lugar em que foi, ela preencheu todos os requisitos e logo em seguida foi contratada para sua ‘’grande‘’ estreia.

A partir desta primeira casa em que trabalhou, começou a conhecer muitas pessoas, adquirindo desta forma diversos contatos por todos os cantos onde passava… Durante as noites da semana ela prestava seus serviços em famosos pontos, cafés e até nas ruas. Sendo estes prestados frequentemente para homens bem sucedidos a sua escolha, que deixavam suas pobres esposas em casa para cair na libertinagem noturna. Foi então que em mais uma de suas noites de atendimento num dos bordeis, conheceu um misterioso homem, do jeito que inclusive lhe fazia suspirar ou até mesmo arrepiar todo seu belíssimo corpo.

Seu nome era Armando Kemena, mas apenas Arman para os mais próximos, descendente de espanhóis, por volta de se seus 30 anos de idade, com um olhar penetrante, desafiador e excitante. Barba daquelas por fazer, sempre perfumado com seu inseparável e insinuante chapéu preto e muito bem vestido. Tais quais muitos outros ele também não resistiu à sensualidade e encanto daquela linda jovem morena de cabelos lisos, curvas hipnotizantes e lábios carnudos. Tanto que depois da apresentação ele a chamou para um canto e fez algo diferente para a época, tratando-a com muita educação, lhe oferecendo bebidas, quase como se estivesse tratando-a como uma nobre.

Ao passar de algumas horas, parecia que eles se conheciam de uma vida inteira, com gostos e pensamentos compatíveis, um dialogo extremamente descontraído e até mesmo bem íntimo. Tanto que só optaram por ir embora, quando a casa já se encontrava com todas as cadeiras reviradas, o barman guardando os últimos copos lavados e com a luz do luar penetrando as portas e janelas parcialmente trancadas.

Foi quando que para finalizar, ou melhor, começar, que o encantador homem misterioso e como um grande cavalheiro, se ofereceu para acompanhar Julie de volta até seu frio e vazio apartamento. O prédio da moça ficava algumas quadras dali, num bairro de classe média e onde costumavam morar também alguns operários e outras prostitutas. Apesar de ficar um pouco sem jeito, Julie aceitou e eles saíram do estabelecimento rumo à escuridão gélida da noite. Ela nunca se esquecera de quão confortável estava na companhia de Arman, tanto que foram conversando por todo o trajeto, sem nenhum aspecto de cansaço, sono ou coisa do tipo. Era como se a diversão estivesse apenas iniciando.

Para compensar o acompanhamento e ser gentil, além de querer continuar ao lado dele, Julie lhe convidou para entrar e “tomar um café”. Daquele momento em diante, tudo aconteceu perfeitamente, quando finalmente entre uma conversa um pouco mais picante, aproximaram-se e enfim sentiram o calor de seus corpos, que de imediato os levou para o quarto.

Em uma espécie de êxtase, naquele fim de madrugada ela sentiu algo que jamais imaginava ,como se estivesse em outro mundo e ao final, em uma mistura de sensações reais e de fantasias, acabou adormecendo. Acordou somente as 3 da tarde, com o insistente miado de seu querido e amigável gato branco chamado ”Mingau”, que lhe fitava com imensos olhos azuis em cima do criado mudo. Foi aí que olhando para seu lado da cama, encontrou somente um bilhete dizendo poucas palavras que nada entendeu:

” Adorei esta noite, mas será melhor ficar sozinha. Espero que entenda. Voltarei na hora certa, Arman”.

Pensando mais uma vez ter sido usada por outro espertinho qualquer, levantou-se desolada e caminhou ao banheiro, rumo a um demorado banho, quando sentiu uma forte tontura e sentou-se em meio ao corredor. Suava frio, sua pele morena parecia opaca e sem vida, e enjoos terríveis iam e viam a todo o momento.

Então criando forças, conseguiu se levantar e entrar no banheiro. Tirou sua roupa, ergueu os cabelos para amarrar no estilo coque, passou a mão pelo pescoço e sentiu de imediato duas pequenas perfurações, uma ao lado da outra. Pensando ter sido uma picada de algum inseto, tentou entrar no banho, mas teve de correr de volta para sua cama num horripilante mal estar.

Delirava em um estado parecido com o febril, coisas sem sentido ate então, como fleches da noite passada, com algumas cenas que ainda lembrava e outras que pareciam impossíveis de ter acontecido. Via sangue em suas bocas enquanto se amavam e os enormes caninos do seu amante enquanto a possuía. Até que sem perceber adormeceu novamente, acordando apenas às 10 da noite com um forte barulho na janela do quarto. Ainda sem entender o porquê de estar daquela forma e muito menos aquelas visões sem nexo, fechou a janela e resolveu voltar para cama.

No entanto, no exato momento em que se virou novamente para se deitar, deu de cara com aquele charmoso e agora detestável homem ao pé se sua cama. Mais do que chocada, ela tentou  lhe perguntar como havia entrado ali, porém ele não a deixou completar a frase. Levando gentilmente a mão à boca de Julie e pedindo para que ficasse calma, pois explicaria tudo que havia acontecido e o que ainda estava para acontecer.

Ao final de sua explicação, Julie deu uma enorme gargalhada seguida de um grito, no qual aclamou por ” SOCORRO! ”.  Neste momento como num piscar de olhos, Arman se afastou um pouco, colocou um sorriso de desdenho em sua boca e apenas lhe disse que a deixaria entender e aceitar tudo por si só. Depois se aproximou novamente, deu-lhe um leve beijo em sua testa, que inclusive a fez fechar os olhos e desapareceu novamente como num passo de mágica.

Indignada com tudo que acabara de escutar e ver, mas sem forças para ao menos sair do quarto, deitou novamente pensando em todo aquele absurdo. Naquele instante ela sentiu medo, achando que havia se envolvido com um louco. Porém depois de alguns instantes adormeceu novamente, tendo outras visões terríveis com o mesmo contexto anterior.

Então às 2 da manhã uma fome nunca antes sentida acordou Julie, que parecia estar ótima, como se nada tivesse acontecido anteriormente. Vestiu-se, achando ainda sua pele opaca e agora muito fria, e seguiu para a cozinha a fim de comer algo. Beliscou uma maça que logo lhe fez um mal absurdo, como se estivesse engolindo fogo. Foi então que decidiu sair para caminhar sem rumo, com o intuito de pensar ou ao menos tentar entender tudo que acabara de vivenciar.

Foi então que ao passar pelas pessoas nas ruas, que naquela hora da noite eram em sua maioria bêbados ou prostitutas, começou a ter desejos totalmente estranhos e animalescos. Como uma selvagem, sentia cheiros, via e ouvia coisas que jamais um ser humano normal poderia. Quando novamente teve a sensação de fome tomando conta por completo de seu ser. O estranho daquele momento é que ela percebera que não queria uma comida qualquer, mas sim carne, ou melhor, o sangue da carne. Chegando em seguida há uma conclusão ainda pior: Quero sangue de humanos!

Julie estava incontrolavelmente louca de “sede”. Sentia o cheiro do plasma e até mesmo podia vê-lo correndo pelo corpo de cada um que cruzava seu caminho. Impensadamente e tomada por um desejo demoníaco, ela se via perseguindo outra jovem, quando inesperadamente em uma daquelas escuras esquinas, Armand surge a sua frente e lhe diz com sua voz sexy e doce:

”Entendes agora minha cara? Se quiseres minha ajuda é só pedir!”

Naquele instante Julie se desesperou e um ódio frenético tomou conta de seu ser. Não conseguia pronunciar uma palavra que fosse e tudo que conseguiu fazer foi esmurrar o peito de Arman, ao mesmo tempo em que algumas lágrimas molhavam seus belos olhos. Um choro soluçante havia tomado à moça e enquanto Arman lhe abraçava forte, os pensamentos certos, pareciam ter invadido sua mente. Agora tudo fazia sentido: já não era mais uma humana, e havia sido transformada em um Wampir. Arman viu em Julie um ser completo ou pelo menos alguém que lhe seria uma bela companhia para noites que até então o eram frias e solitárias.

Julie precisou de aquele momento em diante acostumar-se com sua nova forma e obedecer aos ensinamentos de seu mestre e amante. A partir dali, deixou para traz tudo o que dizia respeito a sua forma humana, inclusive o contato com sua mãe.

Com o passar dos anos o Wampir lhe ensinou tudo o que sabia e lhe era cada vez mais carinhoso e compreensivo. No entanto, a única coisa que a Wampir não conseguiu deixar para traz, era o trabalho em bordéis ou lugares do tipo.

Tudo isso era facilitado por um estabelecimento que Arman possuía. Um cabaré dos idos de 1817, onde sempre havia boa musica e mulheres se apresentando de diversas maneiras. Claro que tudo era na verdade apenas uma fachada, onde funcionava um imenso esquema de banco de sangue para outros vampiros: os clientes entravam, e então os deslumbrantes seres da noite, que disfarçadamente se faziam presentes, seduziam e os atraiam. Tanto homens quanto mulheres, depois de atraído eram levados para algum quarto no lugar ou nas proximidades, e possuíam seu precioso sangue sugado até a última gota. Ao fim da alimentação os corpos eram ocultados por Arman ou seus seguidores, que inclusive lucravam muito com tal esquema.

Fora inclusive em uma dessas noites que Julie conheceu Franz, o Wampir se encantou rapidamente pela Wampir novata. No entanto, apenas Ferdinand conseguiu digamos ir além da amizade com ela. Fato que até hoje provoca certas brincadeiras entre ambos…

No entanto, o negócio de Arman não durou muito tempo, um famoso bon vivant da época fora morto em seu estabelecimento e a policia chegou até o lugar. Todos tiveram de largar tudo as pressas e na fuga Arman fora morto em uma batalha entre vampiros e demônios.

Julie sentia-se totalmente perdida e não sabia o que fazer, quando aceitou prontamente o convite de Ferdinand para ir viver com seu clã no então novo mundo do Brasil. A ideia seria começar uma nova história e bem longe da sujeira londrina. No entanto, devido aos vários pensamentos que a perturbavam, depois de um tempo ela optou por viver sozinha, de forma independente a clãs ou seitas. Além disso, o ódio aos demônios que mataram seu mentor lhe serviu de base para que se aprimorasse em tais estudos e a fizesse se tornar um tipo de especialista nos assuntos das trevas e suas ramificações.