Hoje escreverei meus relatos de uma forma diferente. Vamos ver se vocês apreciam este estilo mais impessoal, em terceira pessoa e sobre a noite de ontem.

Ferdinand se preparou para sair da mesma forma de sempre. Verificou os dois pentes sobressalentes de suas ponto 50, habitualmente totalmente carregados, com uma bala de prata intercalada com uma de chumbo. Vestiu uma calça jeans, amarrou o all star vermelho e procurou por uma camiseta qualquer em seu armário. Depois arrumou devidamente o coldre nas suas costas e por cima de tudo, ainda trajou a sua jaqueta de couro preta, feita sob medida por um velho amigo Wairwulf.

Ao mesmo tempo em que o Wampir aguardava a sua HD esquentar na garagem, Stephanie arrumava a sua filhinha na cadeirinha do banco de trás, do carro que fora emprestado por Eleonor.  A ideia da morena era simples, ir a um dos shoppings da cidade e passear um pouco. Porém, o que ambos não esperavam é que a suas noites não seriam tão simples.

Moto na estrada e acelerando um pouco mais que o normal. A sensação de vento fazendo forte pressão contra seu corpo, sempre fora uma das mais apreciadas pelo notívago ser. Sem rumo, mas na certeza de que precisaria se alimentar, ele dirigia até o centro da cidade, quando fora fechado por um carro, que simplesmente saiu do acostamento sem sinalizar. O habilidoso motoqueiro jogou rapidamente sua moto para a esquerda, depois para a direita e com muita manha reestabeleceu a direção de forma ágil. Todavia, a indignação foi tanta que ele resolveu reduzir um pouco a velocidade, ficando ao lado do carro e quando estava para xingar o motorista, percebeu que era uma senhorinha muito idosa. Fato que o conteve e que ainda por cima lhe fez rir de tal situação.

Sthephanie estava um pouco estressada, sua filha estava num momento de teimosia e a saída de casa não foi das melhores. Em sua cabeça algumas voltas no shopping e quem sabe algumas roupas novas lhe faria muito bem. Ainda mais depois que Eleonor, sua atual tutora, disse que iria a encontra por lá para lhe dar algumas dicas. Ela nunca havia dirigido sozinha por aquela região, mas resolveu depositar todas as suas esperanças no moderno GPS instalado no painel do carro. A estrada em meio a floretas não era das mais fáceis, porém Stephanie nunca teve problemas com direção e dentro de 20 minutos no máximo ela deveria chegar a uma das principais avenidas da cidade.

Depois de levar um breve susto, Ferdiand conseguiu estacionar a sua moto em um lugar próximo ao pub que ele decidiu ir. A fome já estava lhe agoniando, tanto que nem percebeu que havia esquecido seus documentos em uma das carteiras em casa. Na entrada do lugar, o segurança lhe entregou um cartão, porém outro só permitiria sua entrada caso ele apresenta-se algum documento. O Wampir tentou de tudo inclusive suborno e por mais incrível que pareça nem assim conseguiu entrar em tal lugar. “Que noite” pensou ele e já que precisava se alimentar resolveu dar mais umas voltas pela cidade em busca de alguma alma perdida.  Até que em determinado momento resolveu ligar para um amigo, que de imediato lhe passou o endereço do depósito de sangue mais próximo.

O carro de câmbio automático e de motor potente conquistou rapidamente a confiança de Stephanie. Oitenta, cem, cento e ciquenta… Rádio ligado bem alto e provavelmente tocando algum samba, seu som predileto. A perícia disse que não foram encontradas freadas, o que indica que ela provavelmente não viu a curva. Todos os airbags estouraram, várias capotagens e a 10 km de casa. Acabara naquele momento três décadas de vida, recheadas de confrontos que na maioria das vezes eram próprios e relacionados à sua falta de amor próprio. Acabara junto quatro anos de vida e que praticamente nem havia começado para aquele pequeno ser.

No instante do acidente Ferdianad estacionava sua moto e ao tirar o capacete, foi acometido por uma sensação estranha, uma espécie de calafrio. Algo que lhe fizera voltar um pouco a si, em meio os devaneios de seu companheiro demonico, como ele prefere chamar. Todavia, ele precisava se alimentar, concentrou-se novamente e entrou naquela espelunca. Logo na entrada três prostitutas lhe ofereceram um programa a R$50,00 a hora. Ele as ignorou como se não tivesse visto e foi direto ao balcão. A senha era “carne fresca” e ao pronunciá-la em claro e bom o tom o homem muito magro lhe apontou uma porta. Porta adentro e depois de dois corredores uma menina com pouco mais de 18 anos e muito magrinha disse ao lhe ver: “R$2000,00 e tudo que você quiser”.

Ao ouvir tais palavras o Wampir ignorou seus procedimentos de segurança, tomou a garota no colo e chutou uma porta que estava entreaberta a sua frente. Dentro do lugar ele bateu a porta novamente para fechá-la e com a garota contra a parede tomou seu sangue. Ferdinand estava possuído por seu lado mais nefasto, o sangue da jovem que vinha direto de sua jugular, entrava por suas entranhas e lhe extasiava.  Ele não controlou o tempo, ele não se conteve, ele apenas se alimentou como um coiote extremamente selvagem faria com sua pobre vítima.

Numa única noite três corações haviam parado de bater por causa daquele jovem Wampir.  Alguns trocados foram dados em troca do silêncio do barman e ele voltava para casa, quando sente o celular vibrando no bolso de seu jeans. Ele reduz um pouco a velocidade, olha no display quem lhe chamava e ao perceber que era sua irmã Eleonor, resolve parar para atendê-la. Foi no acostamento de uma BR que ele recebeu a notícia e aquele arrepio que o acometera, agora lhe fazia todo o sentido. Aquelas palavras haviam tocando fundo em sua alma e o ressentimento lhe viera a cabeça. Talvez a lua em escorpião seja a sua maior punição, porém o que foi visto é que o sentimento de culpa tomou conta da cabeça daquele eterno jovem de 25 anos.

Mais uma vez ele enfrentava de frente a crise que já o atormentava nos últimos sete meses. No entanto, alguns minutos sentado a beira do asfalto ao lado de sua moto, ele se lembrou de sua real situação. “Eu sou um Wampir, eu sou um predador e a morte não deve me abalar”. E no fundo de suas ideias o que acabou lhe confortando, fora o fato de que pelo menos dois daqueles três corações, haviam na verdade pedido por tal fim.