Certa vez, ainda nos primeiros anos na faculdade em Paris, Evelyn estava tentando chamar a atenção de um rapaz. Ela não tinha a menor intenção de casar-se com ele, apenas queria se divertir um pouco.
Ele também estudava na Sorbonne, fazia qualquer coisa bem diferente de História da Arte e eles apenas se cruzavam nos corredores.
Às vezes Evelyn o via no café que frequantava nos arredores da faculdade. Sentou-se algumas delas em seu campo de visão, chegou até a distraidamente esbarrar em seu braço, mas nada.
O rapaz simplesmente parecia ser imune aos pequenos truques dela.
Os meses passaram e a única coisa que ela conseguiu foi tornar-se conhecida através de amigos em comum.
Começou quando um dia ela abordou o rapaz e um amigo, fez uma pergunta qualquer sobre um movimento do diretório estudantil. Enquanto falava, Evelyn olhava ambos e não mostrava interesse. A resposta veio do amigo, que prontamente se pôs um passo a frente e explicou onde e quando ocorreria a manifestação. Ela não estava interessada de maneira alguma em participar, mas como era um assunto que tocava todos da universidade, qualquer aluno de qualquer curso poderia ter mais informações. Ela não queria cometer uma gafe e perguntar sobre arte à alunos de administração, como já tinha visto o tal rapaz saindo da sala do diretório estudantil, tinha certeza que ele não estranharia a pergunta.
Evelyn estava certa, ele fazia sim parte do diretório, mas não era um membro atuante, o amigo por outro lado era o vice-presidente. Assim ela conseguira a atenção do cara errado.
Quando já estava agradecendo e despedindo-se meio frustrada, mas sem deixar transparecer, a sorte lhe deu um sorriso. Ane, uma de suas colegas de aula aproximou-se e abraçou os rapazes, adivilhe só, eles eram vizinhos. Bingo!
A colega até que era um tanto agradavél, bem menos fútil que as outras.
Os quatro sairam algumas vezes para um café, outras apenas Evelyn, Ane e o amigo. Ela conseguira, estava no círculo dele, mas não podia dar mais nenhum passo. Se ele a quisesse, o próximo movimento deveria ser dele.
Mais uma vez o tempo passou e nada.
Um dia devaniando em seu pequeno apartamento no centro de Paris, Evelyn lembrou-se de uma conversa que ouvira em suas andanças pelo mundo da magia. Um truque simples para conseguir a atenção de um rapaz.
O feitiço era fácil, não havia palavra secreta ou qualquer abracadabra.
Em uma folha de papel Evelyn escreveu dos dois lados, preenchendo todas as linhas com o nome completo do rapaz, enquanto se concentrava na imagem dele. Depois ela pegou uma bacia de ferro e queimou o papael enquanto se imaginava carinhosamente abraçada ao rapaz. Assim quando tudo era apenas cinzas, ela foi até o terraço e pedindo aos poderes do ar que lhe atendesse soprou o conteúdo da bacia no vento.
Passaram-se duas semanas e Evelyn não viu ou ouviu falar do rapaz. Ela ainda saia para um café com os vizinhos dele, mas ninguém comentava nada.
Depois de algum tempo Evelyn relaxou, achou que talvez ainda não tivesse poderes suficientes para uma simpatia simples e continuou tocando a vida normalmente.
Até que um dia sentada no café de costume, ouviu alguém lhe dizer “oi”. Ela se assustou, pois estava concentrada em um de seus livros de história, quando levantou o olhar, era o tal rapaz.
Educada Evelyn perguntou se ele não queria se jutnar à ela na mesa e ele aceitou. Naquela tarde eles conversaram longamente, sem pressa e sozinhos.
Agora Daniel não só acenava quando cruzava com ela nos corredores, como também muitas vezes parava para conversar ou a chamava pelo nome.
Os cafés com os vizinhos continuavam e Daniel passou a sentar-se sempre ao lado de Evelyn. Os encontros a sós também se intensificaram e os dois foram se tornando mais intímos.
Não dá para explicar a maneira que Daniel a encantava, não era amor ou paixão, disso ela tinha certeza. Mas ele tinha alguma coisa que ela tentava entender, parecia que sempre havia muito mais a ser tido, mas Daniel nem puxava o ar.
Ele tinha uma energia diferente, que como Evelyn descobriu anos mais tarde, agia como um filtro nos olhos dela e nunca deixava a beleza dele desaparecer.
O verão chegou e os amigos trocaram os cafés do centro pelos piqueniques no Champs de Mars. Essa época do ano, ali é forrado de turistas indo e vindo da Torre Eiffel, mas era exatamente o grande número de desconhecidos que os atraia. Passavam horas apenas observando as pessoas.
Numa tarde quente Evelyn encontrou Daniel no Louvre. Ela fazia visitas frequentes, já que ainda não conseguira ver todas as obras expostas no museu, mas se surpreendeu por encontrá-lo. Mais uma vez o misterioso rapaz desafiava os sentidos de Evelyn, mesmo assim ela se deixou levar, alguma coisa lhe dizia que não havia perigo.
Daniel a convidou para jantar em um dos charmosos barcos que passeiam pelo Rio Sena e oferecem refeições, com vinhos e queijos enquanto passam pelos belos pontos históricos da cidade.
O jantar foi mágico e Evelyn sentia-se feliz e satisfeita. Desembarcaram em frente a Torre Eiffel e aproximaram-se da multidão que esperava o show.
Naquela noite, enquanto os turistas aplaudiam o acender das luzes na Torre mais fotografada do planeta, Daniel beijou Evelyn e logo depois sumiu na multidão.