Há algumas noites atrás eu já havia retornado ao Brasil e estava em uma de minhas casas por ai, quando resolvi sair para me alimentar. Preciso confessar que estou me esforçando ao máximo para terminar a revisão do meu livro, mas a cada momento que releio as mais de 250 páginas, eu me lembro de algo que precisa ser acrescentado. Então na verdade isso tem se tornado algo bem chato e as vezes preciso arrumar alguma coisa para me distrair antes de cair na monotonia.
Nesse contexto e apesar de não utilizar meus poderes com tanta frequência, o que me permite ficar alguns dias a mais sem se alimentar, é inevitável que o meu demônio venha a se manifestar em algum momento. Já faz tempo que não entro em nenhum caso policial, ou que me permito vasculhar a vida bandida alheia por ai, então naquele momento não tinha um alvo fácil à vista. Também não existia nenhum escravo ou banco de sangue por perto o que dificultaria ainda mais a minha caça. Com isso, resolvi dar aquela de voyeur de humanos e sai pela cidade de carro em busca de indivíduos possivelmente capazes de suprir minha fome.
Cidade grande e com muitas ruas para vasculhar. Eu até poderia, se estivesse com muita fome, ir a algum ponto de drogas. Porém estes lugares são nojentos e seria o mesmo que me alimentar de um porco em um chiqueiro, ou seja, evito ao máximo. Eu também não estava afim de uma balada ou de uma prostituta… Sim, estava muito chato… Fui então para um shopping e resolvi pegar uma seção de cinema, dessas que começam bem mais tarde, tipo 23 horas.
O filme não vem ao caso, o que importa é que lá também estavam algumas pessoas sozinhas tal qual eu. Sessão encerrada perto da uma da manhã e todos que lá estavam foram embora rapidinho. No entanto, logo que desci as escadas percebi uma mulher na faixa dos trinta anos. Cabelos encaracolados e loiros artificialmente, porém bonitos. Ela usava uma calça jeans bem colada que marcava um pouco sua pequena calcinha, e usava uma blusinha básica dessas de loja de departamento. Não estava vulgar ou até mesmo linda, mas também não seria um exemplo que os estilistas idolatrariam. Também não sei o que me chamou a atenção nela e talvez a sua simplicidade e solidão tenham me provocado algum desejo oculto.
Eu não a segui, mas como ela acabou pegando o mesmo elevador que o meu, eu não resisti à tentação de dar em cima. Olhei então em seus olhos castanho e flertei apenas com um sorrisinho leve. Entre nós havia um casal, mas ela percebeu minha investida e me respondeu da mesma forma. Isso indicava que a porta estava aberta e quando o casal desceu antes, eu me aproximei.
– Vimos o mesmo filme sabias? Tu gostou do fim?
– Pelo sotaque você não é daqui? Mas respondendo a sua pergunta: sim adoro finais que surpreendem.
Nesse momento eu me aproximei mais e lhe respondi.
– Sou do sul… Florianópolis conheces?
Com essa minha resposta ela não hesitou minha aproximação e me respondeu em seguida de uma forma mais receptiva ainda.
– Nossa, amo aquela cidade, já passei férias por lá uma vez. Você está passeando por aqui?
Depois da pergunta dela o elevador se abriu e para minha sorte o nosso andar era o mesmo. Permiti então que ela fosse a minha frente, ela agradeceu e eu continuei a conversa:
– Às vezes eu venho a trabalho pra cá. Uma das filiais da minha empresa fica por aqui e preciso acompanhar o negócio de perto. Como tu sabes tudo flui melhor diante aos olhos do dono, não é mesmo?
– Sim sei bem, sou do rh de uma empresa e sempre que os donos estão por perto parece que todo mundo trabalha mais, ou pelo menos finge que trabalha né?
Neste instante ambos rimos moderadamente e então eu resolvi ser mais direto no papo, pois a risada é uma grande porta aberta na conquista.
– Eu ainda não sei o teu nome, mas adoraria sabe-lo ali naquela cafeteria, que tal?
– Humm não sei se devo, já está tarde e preciso acordar cedo amanhã.
– Ok se tu me falares o teu nome pelo menos, eu te dou uma carona para casa.
– Mas eu também estou de carro.
Nesse momento ela havia dificultado um pouco as coisas, então precisei agir rápido.
– Nossa que difícil, se existe uma coisas que admiro nas mulheres é essa auto valorização. Parabéns me conquistasse.
Ela sorriu, ficou um pouco sem jeito, mas acabou respondendo:
– Marina.
– Prazer Marina, me chamo Roberto. Aceita um café agora que já nos conhecemos?
– Gostei de você gatinho, mas realmente preciso acordar cedinho amanhã. Tome, este é meu cartão. Amanhã é sexta talvez tenha happy com alguns colegas. Me ligue perto das 18, seria ótimo se você aparecesse por lá.
Às vezes algumas mulheres são super resistentes e na hora da conquista não vale apena forçar a barra. Então olhei brevemente o seu cartão e o coloquei no bolso do meu jeans. Depois me virei para ela e disse.
– Não sei se estarei aqui amanhã, mas se estiver te ligo. Foi um prazer senhorita!
Depois disso nos beijamos no rosto, e fui agraciado com seu belo perfume doce que inclusive aumentou um pouco o meu desejo por sangue. Apesar disso, como nossos carros estavam em locais diferente nos separamos por ali mesmo e então lá estava eu apenas com um mísero numero de telefone. Às vezes acho que minha idade aparente não passa muito credibilidade, porém isso é outra história. Tratei então de resolver minha fome e parti para uma rua de prostituição.
Peguei uma menina que achei mais de acordo com meu gosto e ali mesmo no carro começamos o que seria apenas um programa. No entanto, num momento de descuido, injetei no pescoço da menina uma dose de uma substância que compro sob medida e que faz a pessoa desmaiar. Com isso ela apenas sentiu um breve beliscão moderado e literalmente capotou cerca de 5 segundos depois.
Arrumei seu corpo no banco e em seguida me alimentei. Apenas com o suficiente para saciar o meu demônio e tradicionalmente lambi a ferida para potencializar a cicatrização. Depois fui para casa e lá chegando entreguei o carro para um de meus Ghoul que cuidou da moça, certamente da melhor forma que encontrou.
Na noite seguinte, pensei em ligar para a moça do cinema. Porém minha empolgação havia passado e hoje pensando melhor, acho que o destino vai ter um caminho melhor para ela. Certamente bem melhor daquele que eu a conduziria, caso estivesse entrado em sua vida…