Como eu encontrei o Ferdinand

Era uma típica noite em que eu decidi sair pela cidade, queria ver algumas pessoas e ficar um pouco sozinha, afinal eu moro em um apartamento com mais dois vampiros homens e eu sendo a única “mulher”, ainda tenho minhas necessidades femininas que incluem,  ler um bom livro, ir ao shopping gastar um pouquinho, as vezes assistir algum novo filme, ir a alguma exposição ou relaxar vendo um bom stand up. E nesta noite em particular, eu decidi mudar um pouco a minha rotina “feminina” e fui até um pub bem conhecido em uma das travessas de uma famosa avenida. Eu sempre gostei muito da diversidade de pessoas, estilos, os vários tipos de culturas que se misturam a noite nessas típicas travessas da avenida, pelo menos lá eu não me sentia tão “A estranha no ninho”.

Esse pub em particular, apesar de estar muito cheio, era um lugar agradável, lembrava-me alguns pubs de Londres, com os banquinhos de madeira, o bar era bem rústico, exibindo vários tipos de cervejas e outras várias bebidas. Sentei-me em um canto mais discreto no balcão, pedi uma taça de espumante para disfarçar e fiquei ali, sentada, apreciando o lugar e como os humanos interagem.

Após creio que uns quarenta minutos, senti uma forte presença aproximando-se, realmente muito forte, um vampiro antigo, e para minha sorte naquela noite eu decidi que não era necessário nenhum tipo de proteção… Eu sentei de uma forma mais ereta e comecei a me preparar para sair dali e sumir o mais rápido possível, só que a minha tática foi em vão, pois o tal vampiro sentiu minha presença (creio que ele sentiu a minha presença bem antes que eu percebesse a dele) e entrou no local que eu estava, alto, imponente, forte (lindo), parecia até que ele tinha saído de algum filme da época medieval. Cabelos longos despenteados, barba por fazer e vestido de forma simples:  jeans, camiseta preta surrada, allstar velho e carregando uma jaqueta de couro e um capacete vintage.

Confesso que dentro de mim eu não sabia o que fazer, eu não sabia se acenava a cabeça como quem diz “E ai somos do mesmo time”, se eu pegava e saia dali correndo, ou se eu dava um abraço.  Minha primeira opção foi dar no pé, mas como nem tudo sai do jeito que a gente deseja, quando eu me levantei um pouco na cadeira, ele em questão de segundos virou o rosto para mim e me penetrou com aqueles olhos azuis e pensando algo do tipo: “ Boa tentativa, mas não”. Em minha cabeça eu só conseguia pensar “ Fuck, fuck, fuck, fuck”, e sentei de volta e esperei ele vir até mim.

– Boa noite senhorita.

– Boa noite.

– Minha cara, o que faz alguém como você, sozinha, sem nenhum tipo de proteção aparente e em um lugar como este?

– Creio que hoje eu deixei a inteligência em casa e esqueci que o mundo ainda continua um lugar perigoso…

– Ah gostei do teu sarcasmo, e não eu não vou lhe fazer mal.

– Eu tenho o dom do sarcasmo e ironia quando estou em uma situação como essa, me desculpe.

– Situação como esta?

– Com medo e um pouco de receio.

– Como te disse, fica tranquila, não sou nenhum sádico.

– Que bom, porque desse tipo eu já tenho até doutorado. Enfim, onde está minha educação? Prazer Lilian.

– Doutorado? Interessante… Mas ok as formalidades… Prazer em te conhecer Lilian.

– Prazer em te conhecer também…….

– Ferdinand.

– Ferdinand, um nome antigo e creio que Europeu?

– Sim… Conheces a Europa pelo visto?

– Sim, mais do que gostaria.

– A curiosidade é uma virtude e um defeito que tenho, conte-me mais. Estou até pensando em arrumar uma banqueta e sentar-me ao teu lado se não for incomodo, é claro.

– Imagine, não quero desperdiçar teu tempo com minhas bobagens. Alguém como você deve ter muito mais com o que se preocupar…

– Tempo? Querida, o que eu mais tenho é tempo! Adoraria ouvir tuas histórias.

– Se não for problema, e se você não for me prejudicar, vai ser um prazer lhe contar.

– Te prejudicar? Por um acaso você vai me bater ou algo do tipo?

– Não tenho motivos aparentes…

– Então não há nada que te impeça de começar a falar…

– Você é bem insistente e persuasivo…

– É um dos meus dons.

Depois disso, comecei a contar tudo o que havia passado para Ferdinand e ele foi muito gentil ao me ouvir e entender o que havia passado. Foi um gentleman por todo o tempo que ficamos lá e confesso que me senti mais a vontade e também um pouco mais segura perto dele. Não por ser extremamente forte, mas por ter tido a paciência e por ter me aconselhado em muitas coisas, coisas pelo qual levo muito em conta hoje em dia.

 

Ferdinand W. di Vittore

Nascido em 1827, foi transformado em vampiro com 25 anos em 1852, enquanto ainda vivia na pequena cidade de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, Santa Catarina – Brasil.

Criou este site em 2008 com o objetivo de divulgar as ideias do seu clã, instituição fraternal em que ele, seu mestre e alguns amigos mais chegados pertencem. Além disso ele também publica aqui e no vampir.com.br histórias do seu cotidiano. Está quase sempre bem humorado e nos últimos anos possui um projeto chamado “Os escolhidos” em parceria com Hector. No qual eles “ajudam” a polícia e a sociedade na resolução de crimes hediondos.

Ferdinand também ocupa suas noites com a escrita e recentemente publicou um livro com suas memórias: https://my.w.tt/UiNb/gz325qd62s

Você pode gostar...

4 Resultados

  1. Ana Julia Petrova disse:

    Uau… Eu estou sem palavras!! Eu gostaria de estar no lugar de Lilian, poder conhecer o encantador Ferdinand!! Um dia será que poderá vir ao meu encontro, mesmo sendo tão nova, gostaria de te conhecer!! Bom, você e os outros do clã!! Gostei muito deste resumo como se conheceram!!

  2. joseph freire ferdinando disse:

    Que bela historia gostei muito, me considero vampiro porque ja provei um pouco do meu sangue quando criança e nao sabia de nada, sou louco por me considerar vampiro?

  3. (w) Lilian K. disse:

    Confesso que foi bem interessante a conversa que tivemos. Dear Joseph, curioso teu caso… Nunca ouvi ou soube de nada do tipo antes. Kisses