Na noite de sexta para sábado eu estive em uma cidade ao norte da Grécia chamada Épiro. Uma cidade linda, repleta de lagoas com água extremamente cristalina, porém extremamente úmida, em função da cansativa chuva que nunca cessava. Fui para aquela região em busca do famoso oráculo de Zeus, procurando respostas a algumas dúvidas que insistem em bagunçar minhas ideias nos últimos meses.

Como estou finalizando o livro eu não posso me dar ao luxo de ter problemas existenciais e preciso me manter são. Então quando Hector me ligou e disse que estava próximo com seu barco eu de imediato aceitei seu convite para o passeio.

Hector é o que se pode chamar de vampiro ou homem com essência selvagem. É um cara que passa mais tempo no mar do que na terra, possui uma evidente cara de mal e não se preocupa como os hábitos de higiene dos países tropicais. Aliás, nessa minha passagem pela Europa o que mais tenho visto são hábitos de higiene diferenciados do Brasil mesmo nos dias de hoje. Antigamente até que era normal, mas hoje em dia tu pedir um quarto numa pousada da Itália e a senhora querer cobrar a mais se tu fores tomar banhos todos os dias é um tanto quanto diferente.

Em meio a alguns hábitos europeus que eu não praticava a mais ou menos uns 60 anos, Hector e eu iniciamos nossa empreitada aportando em Igoumenitsas. Desta pequena cidade que possuía um mar extremamente cristalino, percorremos de carro uns 70 km até o sítio arqueológico de Dodona. Fora uma viagem de aproximadamente uma hora, em meio a paisagens vislumbrastes, mesmo a noite e com a pouca luz da lua. No qual certamente indico a quem puder viajar por lá, principalmente se for de dia, pois deve ser ainda mais lindo.

Já no sítio ficamos por algum instante admirando as ruínas, no qual eu desprendi maior atenção ao teatro, cuja lenda diz que podia abrigar mais de 15mil pessoas. Sua arquitetura surpreendeu-me pela alta tecnologia aplicada na época e que certamente deixa muitos engenheiros dos dias atuais com inveja. Depois inicie junto de Hector a busca pelo local que abrigava o famoso Carvalho, árvore que existiu até meados do século IV, quando alguns cristãos puseram tudo a abaixo.

Era nesta árvore que os antigos penduravam placas de bronze com escrituras que continham seus pedidos e na sequencia apreciavam por alguns minutos as respostas trazidas pelo barulho do vento ou de quaisquer outro elemento que surgisse. Sebastian, aliás, certamente ficará com muita inveja ao ler este artigo, ainda mais quando ler o próximo parágrafo.

Hector é um vampiro famoso por possuir ligações com o mundo dos espíritos e se não fosse o seu jeitão de poucos amigos, certamente esse seu dom poderia ajudar muitos outros, tal qual eu naquela noite. Depois de alguns minutos de meditação, disse Hector que havia atraído para junto de nós um espírito superior, que nos guiaria até o local do antigo santuário. Eu não lembro de ter percebido nada de diferente, porém como tenho muita confiança no ex-pirata o deixei nos guiar sem me intrometer.

Vagamos por alguns minutos em meio as ruínas, passamos inclusive por alguns lugares que desafiariam a agilidade de simples humanos, até o momento em que eu finalmente começara a sentir algo diferente. Não é tipo de sentimento que se pode explicar em simples palavras mundanas, todavia era algo parecido com uma sensação boa, de conforto, que fez inclusive me lembrar do abraço de alguém que gostamos.

Essa sensação aumentou cada vez a medida que percorríamos o lugar até que em fim Hector parou de supetão, próximo a uma pedra e me disse:

– Esta pedra pertenceu ao antigo templo que fora erguido a deusa Gaia. Concentre-se no seu pedido aqui nesta região e aguarde por alguns minutos pelas respostas que este local irá te trazer. Em alguns minutos eu retornarei para te buscar.

Depois de muitos anos de prática eu inicie uma meditação, limpando minha mente e concentrando-se apenas nas minhas dúvidas. Perdi a noção do tempo depois que fiz algumas perguntas e aguardei por possíveis respostas completamente imergido em meu templo interior.

A sensação daquele momento novamente é difícil de ser descrita, porém uma brisa fria tocava de leve meu rosto, senti-me como se estivesse flutuando e ao abrir os olhos percebi que eu estava imerso em um lugar diferente. Era como se uma fina nevoa encobrisse todo o lugar o que dificultava muito a visão a cerca do que me rodeava. Olhei para os lados e ao balançar a cabeça percebi que meus movimentos estavam mais lentos e depois de alguns instantes em meio aquele transe, sinto uma mão tocar de leve meu ombro direito. Aquela mão não me causou nenhum tipo de susto e seu toque foi completamente confortante. Porém quando olhei em direção do que estaria me tocando não ví nada.

Minutos mais tarde eu ainda estava em meu transe, quando começo a ouvir passos. Estes vão ficando mais evidentes a medida que algo se aproxima de mim até que eu abro realmente meus olhos e me deparo com Hector parado aminha frente. Trocamos olhares por alguns instantes quando o pirata rompe o silêncio dizendo:

– Suspeito que as respostas foram-te concedidas?

E eu apenas lhe respondi:

– Sim!

Depois disso ele me esticou uma das mãos. Apoiei-me para ficar em pé novamente e fizemos a viagem de volta. Durante todo o caminho até a praia, Hector respeitou meu silêncio. Fiquei como dizem “digerindo” tudo o que havia acontecido, quando finalmente já no barco agradeci muito ao meu velho amigo. Ele então me levou de volta para o hotel onde eu estava hospedado, lugar onde fiquei até ontem a noite, antes de sair novamente “mochilando” de moto sem rumo.

Acredito ter achado novamente meu equilíbrio, porém somente nas próximas noites que isso ficará mais evidente e independente do que eu recebi de respostas. Sinto que o trem retomou novamente os seus trilhos.