Tanto a vida como a não-vida são feitas de momentos. Estes podem ser bons, ruins ou como agora, no qual eu chamo de limbo. O limbo como vocês sabem é aquela fase no qual as almas ficam depois que deixam este plano, e antes que se defina se elas vão para o céu ou para o inferno. Obviamente estou falando aqui num sentido figurado, todavia, isso é apenas para exemplificar como estou me sentindo. Não sei se em breve terei momentos bons ou ruins e tenho vivido cada noite que se passa, aproveitando o pouco de sanidade que há de me restar por algum tempo ainda.

Naquele final de tarde era pouco mais de 18h, eu já estava ansioso por sair e mal o sol de pôs, me arrumei e fui caminhar pelas ruas do centro. Muitos transeuntes iam para suas casas depois do expediente, quando percebo aquele delicioso perfume. Não sei o seu nome, já tentei descobrir, mas atualmente nem prefiro saber, pois talvez estrague a sensação de excitação que ele me transmite.

Notei que vinha de uma loira que caminhava rapidamente à minha frente e então comecei a segui-la. Percebi por suas roupas que ela trabalhava em algum tipo de escritório e aquele botom em seu taier, me lembrava de alguma logomarca conhecida. Continuei lhe seguindo e quando chegamos ao metrô, meu telefone tocou. Mantive os olhos na senhorita, mas acabei lhe perdendo de vista enquanto Frederick me chamava para um “happy hour”. Fazia tempo que o velho vampiro não dava as caras e isso só aconteceu em função do retorno de Georg. Aliás, desde que meu mestre foi acordado, são frequentes as visitas em algumas de nossas propriedades.

Parti para a fazenda e depois de uns 70 min de moto em meio às estradas arborizadas do interior, eu cheguei a atual sede do clã. Mesmo antes de tirar o capacete, minha audição aguçada já indicava a reunião dentro do velho casarão. Antes de adentrar o recinto eu percebo alguns ânimos exaltados, principalmente da parte de Frederick que falou em claro e bom tom antes de eu chegar à sala principal:

– O senhor é um velho louco, como pode permitir a transformação de tal Ghoul. Não precisamos de mais uma patricinha mimada entre nós.

Neste momento eu adentrei a porta e com o uso de seus poderes Georg fez com que os outros simplesmente ignorassem minha chagada e respondeu ao afoito Frederick:

– Frederick meu amigo, como percebes acordei a pouco, ainda estou me acostumando com essa nossa realidade e tudo o que os tempos modernos me apresentam. Sabes muito bem que nosso clã é um dos menores e em função disto estou permitindo que alguns de nossos Ghouls sejam devidamente treinados e transformados.

Depois de tais palavras ele se virou para mim e disse:

– Vejam, por exemplo, o semblante feliz de Ferdinand que soube recentemente da transformação da jovem Stephanie.

Nesse momento todos me olharam. Stephanie ficou feliz ao me ver, Eleonor idem, Franz fazia sua famosa cara de sínico. Enquanto Georg e Sebastian  e Frederick apenas me observaram com  aquela conhecida “poker face”.  Não me restou nada se não cumprimentá-los ao melhor estilo clássico Wampir, logicamente personalizado a minha maneira:

– Meus cumprimentos irmãos! Que o sangue nunca nos falte, assim como a lua que sempre nos mostrará o caminho do inferno…

Nesse momento alguns riram e outros apenas ficaram quietos enquanto Eleonor me deu um breve beijo na boca deixando Stephanie possessa. Georg obviamente acompanhava a situação pelos dois lados, principalmente no mental e rompeu aquele instante com mais algumas palavras cheias de segundas intenções:

– Percebo que muitos aqui ainda precisam conter seus impulsos humanos, outros precisam saber diferenciar família de negócios e alguns precisam aprender a fechar seus fechecleres. Estou grato pela visita de Frederick, mas hoje tenho algumas visitas em meus negócios. Acredito que todos vocês precisam conversar um pouco entre si, por que não vão há algum lugar se ambientar aos humanos da atualidade?

E antes que qualquer um de nós se manifestasse, Georg apenas se retirou junto de Sebastian, que agora era assessor particular e como dizem, havia me deixado na mão. Assim começava mais uma noite em que aconteceram muitas conversas isoladas. Muitos pontos foram colocados nos vários “is”, antes que Frederick, Franz e eu saíssemos para um “papo de senhores” em uma das casas de show que havíamos adquirido recentemente.