Olá caríssimos,

Já que ainda não tenho muitos assuntos aqui de Tóquio eu lhe deixo alguns trechos produzidos por um amigo meu: o Doutor.

Por favor não tenham medo de sua palavras simples e diretas. Ele é apenas um estudioso…

Um Grito No Vazio – Parte 1

Alessandra abriu os olhos lentamente ao ouvir o som incessante do gotejar não muito distante.

“Plim!…” “Plim!…” “Plim!…”

A cada um desses “plins” Alessandra recobrava sua consciência, ou pelo menos o que restara dela. Desnorteada, ela apelava para sua visão para tentar captar fios de memória capazes de juntar-se formando uma lembrança do que havia lhe acontecido. Lentamente ela observou a sala que estava, se é que aquilo podia ser chamada de sala. Alessandra olhou inicialmente para o teto, era de concreto bastante antigo dado as marcas de mofo e as falhas no reboco… “Bem pode ser fruto da umidade excessiva de uma cidade do litoral”, pensou Alessandra, pelo menos disso ela entendia, afinal se formara com honras na faculdade de engenharia civil, a pelo menos cinco anos atrás. Os olhos de Alessandra detiveram-se por um momento em uma estranha mancha no teto, era de um castanho avermelhado, como se algo tivesse espirrado no teto. “Isso não é mofo, é sangue!” Pensou a jovem assustada, Alessandra mexeu o pescoço, tentando olhar o resto da sala escura, foi então que a dor terrível varando-lhe a espinha fez com que a moça gritasse, e então se lembrou do que havia acontecido…

Alessandra tentou controlar seu medo, talvez aquilo fosse apenas um sonho ruim. A bela garota fechou os olhos com força e falou a si mesma “Acorde!…” Mas a dor que Alessandra sentia no corpo era real, muito real, assim sendo ela novamente forçou-se a abrir os olhos e contemplar sua realidade.

“Plim!…” “Plim!…” “Plim!…”

O gotejar continuava, fazendo Alessandra tomar coragem para mais uma vez explorar com os olhos o local onde estava. Ela percebeu que estava sentada em uma cadeira acolchoada e relativamente confortável, como uma cadeira de dentista, mas não estava em um limpo e claro consultório odontológico, Alessandra estava em uma sala pequena, não mais que quatro por quatro metros, iluminada somente pela débil luz de uma lâmpada incandescente. As paredes eram velhas e mofadas, decididamente fruto da umidade, a ausência de janelas e a sensação sufocante fizeram a engenheira crer que estava no subsolo de algum prédio. Porém, por mais que se esforçasse não conseguia encontrar a origem do gotejar. Alessandra começou a chorar, as amarras de couro em seus punhos e tornozelos a impediam de se levantar, ela sentia uma dor incrível no corpo todo, como se tivesse levado uma surra, porém, por um breve momento a mulher perdeu-se em seus pensamentos, ainda na luta incessante para lembrar o que havia lhe acontecido.

Novamente de olhos fechados, Alessandra lembrou-se de estar passeando no shopping center com seu namorado. Paulo César era um bem sucedido engenheiro, quinze anos mais velho que Alessandra, mas ele fora tão gentil com ela quando Alessandra se formou que simplesmente a conquistou. Ela lembrou-se de estar saindo do Shopping de mãos dadas com Paulo, eles caminhavam no estacionamento para chegar até o Honda civic de Paulo, carro que Alessandra tanto gostava. Ela estava tão feliz! Caminhava sorrindo e brincando com Paulo, tomando um delicioso Sunday de morango do Bobs, o preferido de Alessandra.