Há certo tempo atrás eu estava sem muito o que fazer, praticando o famoso ócio criativo e resolvi escrever algumas histórias sobre temas diversos. Esta que exponho abaixo, foge a tradicional temática das histórias de minha não vida de vampiro, porém gostaria de aproveitar meu espaço para ver a opinião de vocês a respeito. Por favor sejam críticos, tal qual sempre. Obrigado!

Meu bem meu mal

“Não há bem sem mal, nem prazer sem preocupações.”
(La Fontaine)

Sexta-feira, 09:45: Paulo, cansado, tenta ler e entender algumas linhas sobre álgebra. O calor incessante não consegue ser vencido pelo fraco ventilador que sopra no teto da sala. Os olhos piscam, as pálpebras tremem e vários pensamentos tomam conta da cabeça.
“- Aquela maldita prova de amanhã eu não consigo entender nada.”
Fórmulas após fórmulas, as costas do rapaz alto, começam a doer. A cadeira desconfortável e o pouco espaço para as pernas sob a mesa. Tudo é desculpa para sair e tomar um ar.

“-Vejamos o que tenho na mochila.”
Sim, estava lá aquela peteca, que Paulo pegara outro dia com um de seus amigos. A prova ficou de lado, os olhos pararam de piscar e a vontade de dar mais uma cheirada surgiu.
“-Esse pozinho vai me acordar!”
“-Era disso que eu tava precisando”.
Livros largados, mochila nas costas, era hora de procurar um lugar para dar uma cheirada.

A faculdade é um lugar grande, tem muitos prédios cheio de salas vazias e escuras. A noite pouca ou quase nenhuma pessoa pode ser vista. Mas nada melhor que o banheiro da Matemática, ele é grande escuro, tem aquela pia gigante e da até pra tirar um cochilo que ninguém vai perceber.

O caminho até o banheiro é escuro, o silencio é enlouquecedor e os vigias ainda não começaram a fazer suas rondas. Paulo segue solitário, quando de repente, ouve-se barulhos de latas sendo derrubadas. Um calafrio sobe pela espinha do rapaz que levanta a cabeça na procura de alguém ou algo, até que surge a sua frente no meio do corredor um gato preto. O pequeno animal, anda em direção do rapaz, que imóvel, fica a observar o felino passar se esfregando por suas pernas, continuando seu caminho como se não tivesse encontrado ninguém. Paulo respira fundo, olha para os lados, como se procurasse alguém, sorri e continua pelos corredores.

As velhas lâmpadas fluorecentes, piscam e o caminho fica mais sombrio, Paulo empurra uma velha porta que range. O banheiro estava do jeito que ele lembrava, úmido, pouca luz, pia grande alguns mictórios e algumas cabines com vasos sanitários.

A mochila vai ao chão, Paulo procura pela trouxinha. Coloca um livro em cima da pia e desenrola o pó branco em cima. A carteirinha da faculdade serve para quebrar melhor as pedras e a cédula de 1 real vira um tubinho. Tudo pronto, a hora chegou. Em uma só tragada a droga se vai pelo nariz.
“-Sempre me da vontade de espirrar”
“-Será que essa pega rá…pi…do…”

O mundo para por alguns minutos, silêncio, escuridão total. Ouve-se barulhos de pessoas andando, barulho de correntes sendo presas, algo esta sendo arrastado. A escuridão começa a ser interrompida por flashes das lampadas, que mostram portas batendo vultos surgem… Três estalos de dedos são ouvidos. Paulo tenta abrir os olhos, mas encontra dificuldade. As lampadas param de piscar, mas o ambiente continua sombrio. O rapaz sente sua cabeça sendo chutada e quando finalmente abre os olhos vê uma mulher lhe observando sentada na privada. A mulher tem olhos escuros, cabelos longos amarrados em uma única trança e também escuros. Traja uma calça jeans e uma camiseta vermelha, com um cachecol preto envolta do pescoço.

Somente a cabeça de Paulo esta dentro da cabine. Seu corpo do lado de fora parece estar amarrado.
“-Estás te sentindo preso.”
diz a mulher em tom irônico. Assustado e tentando se soltar Paulo diz:
“-O que esta acontecendo, onde que eu estou… me solta”.
“-Tu não tem sido um bom garoto”.
Ficando nervoso Paulo reage:
“-Me tira daqui, socorro, socorro…”
Um novo chute na cabeça o atordoa e o faz para de gritar.

No mesmo tom calmo e irônico a mulher fala:
”-Não adianta gritar, ninguém vai te ouvir, tu sabe que só passam pessoas por aqui de dia…”.
“-Eu não quero saber, me tira daqui sua vaga…”
Com um soco na porta e com a mesma calma na voz a mulher fala:
“-O que eu preciso fazer pra tu ficar quieto? Tu não ta em condições de exigir nada! Eu vou falar e quero te ver bem quietinho entendeu?”
Paulo fica em silêncio.
“-Como eu ia dizendo tu não tem sido um bom garoto, reprovou em diversas matérias, tens desrespeitado a tua mãe, tch tch tch…tadinha dela, trabalha dia e noite pra te manter só estudando e tu maltrata a coitadinha. Tu sabe o que ela passa todos os dias naquele escritório? E a Maria tua ex namorada, tadinha, sofre até hoje pelo trauma que tu deixou nela pelos tapas, arranhões e toda aquela merda que tu dizia pra ela. Mas fica tranquilo hoje tu vai pagar por tudo!”
Paulo que estava até agora ouvindo, arregala os olhos e fala com tom de medo:
“-O que você quer comigo eu nem lhe conheço, o que foi que eu te fiz cara?”
E a mesma voz calma responde:
“-Eu tenho diversos nomes mas pode me chamar de Adriel!”.

Surge novamente a escuridão, um barulho de serra acompanhado de batidas e um grito de dor…
“-Ahhhhhhhhh, para para pelo amor de Deus”.
“-Eu ouvi a palavra Deus? Quem tu acha que é pra pedir pelo amor divino?”
Adriel passa a mão nos cabelos de Paulo, com carinho admira a face do rapaz e da um tapa em seu rosto:
“-Eu não quero mais ouvir tu falar em Deus, ele não existe mais pra ti. Eu vou ser o teu inferno a partir de agora. Lembra-se da primeira vez que tu cheirou cocaína? Foi bom né? Tu gostou daqueles 30 minutos de prazer inconsciente. Sabe o que aconteceu nesse tempo que tu ficou inconsciente? Tu bateu na tua namorada, espancou a tadinha até ela chorar te implorando pra parar, e tu abobado achando que ela tava gostando. Tudo bem isso vai custar um pé”

Escuridão, serra e gritos de dor…
“-Por favor eu te imploro, para para…”.
-“Isso tá apenas começando meu garoto. Teve uma vez que tu fumou cocaína junto de maconha. Nossa foi ótimo, tua cabeça tinha ficado leve, a matéria da faculdade no dia tinha ido que é uma beleza, em casa tu só lembra de chegar e dormir né?” A voz de Adriel que estava calma fica forte e grave:” Quando tu chego em casa tua mãe preocupada te perguntou o que tinha acontecido. Tu grito com ela, chamo ela de vagabunda, abriu a geladeira derrubo tudo que tinha dentro, pego o gato do chão e coloco no microondas. Tu achou mesmo que aquele pobre gatinho tinha fugido e que tua casa tinha sido roubada, como tua mãe disse? Ah isso vai te custar uma perna!!!”

Entre flashes de luz pode se ver o rosto de Paulo fazendo expressões de dor. O barulho insano da serra e os gritos de dor param quando novamente Adriel brinca com o cachecol sobre o rosto de Paulo.
“-Cansada de se incomodar contigo a Ritinha te deu um pé na bunda, finalmente ela descobriu um cara legal e te largou. E o que tu fez? Arrumou briga com o cara, arrebentou uma cadeira nele, ele ficou meio cego de um olho por causa disso sabia? tch tch tch, acho que um braço paga essa dívida!!!
Paulo, quase desmaiado fala:
“- Por favor não me mata não me ma…”
Um golpe certeiro de machado é ouvido, enquanto a mão de Adriel segura a boca do rapaz que não consegue gritar.

“-Tudo bem te sobrou um braço”
Adriel comenta com humor e com um sorriso no canto da boca. Paulo está ofegante, mau consegue respirar…
“-Lembra quando teu pai morreu? Tu não te aguento e pra tentar esquecer o momento subiu o morro e foi cheirar com teus amigos. Foi a vez que tu mais cheirou não sei como não entro em coma. Seria melhor por que dai tu não teria estuprado aquela pobre menina que te ofereceram… Esses teus amigo, tu acha que aqueles merdas são teus amigos? Eles só tão contigo por que tu é engraçado pra eles, quando tu bebe ou se droga tu vira outra pessoa. Eles adoram te ver naquele estado… Bom acho que tu não vai mais precisar desse braço que te sobrou!”

Escuridão total…silêncio…Luz do dia
“-Acorda, acorda muleque… Esse garoto, saco, ficam vindo aqui…”
Dor de cabeça, preguiça, Paulo sente alguém lhe chutando, abre os olhos devagar…
“-Para para!!! O que heim, onde eu to?”
A guarda imóvel olha para Paulo e fala:
“-Levanta dai garoto tá pensando o que? Isso não é teu quarto não pow. Não tem casa não???”
Paulo sem saber direito o que está acontecendo, se arruma pega sua mochila o livro em cima da pia e vai embora pelo corredor. A guarda abre um sorriso, era Adriel com roupa de vigia.