Depois de descansar durante alguns dias em Manaus, Evelyn e Beth embarcaram para João Pessoa, a capital da Paraíba. Mesmo nessa época do ano é bastante agradável por lá e as duas resolveram passar alguns dias na praia.
Evelyn precisava trabalhar um pouco, aproveitou que veio ao Brasil com a desculpa de aprender mais sobre as artes dos Cordéis e levou Beth em um longo passeio pelo sertão.
Lá conheceram histórias, ouviram músicas e se encantaram pelos Cordéis que cantam o dia-a-dia e as lendas da região. Foi durante esses dias que ouviram falar do Chá de Jurema.
A bebida faz parte de um ritual que é as vezes chamado de Catimbó e é dito que este ritual é uma viagem interior, onde é possível curar-se de doenças, afastar o mau olhado e receber conselhos. Beth ainda andava confusa sobre o futuro ao lado do namorado, chegou a conversar algumas vezes sobre isso com Evelyn durante os dias que passaram juntas, mas não havia chegado a nenhuma conclusão. Ela amava Galego, sem dúvidas, mas não queria ser transformada, pois pensava em filhos, e isto, um vampiro não poderia lhe dar. Em meio a confusão de Beth, acharam que uma viagem espiritual para conselhos poderia ser interessante, assim, dirigiram no 4×4 até Alhandra na Paraíba.
A cidade é tida como local sagrado para os cultos com o chá de Jurema e as celebrações são realizadas com bastante freqüência.
Chegaram, instalaram-se em uma pequena pensão e saíram em busca de algum dos mestres da cidade santa para participarem do ritual. O fato de Evelyn ser estrangeira abre muitas portas, o povo receptivo do nordeste adora mostrar sua cultura aos “gringos” e logo elas encontraram um lugar para participar da cerimônia.
Desta vez nenhuma das duas participou do preparo, descobriram apenas que também são denominadas como “ciência de índio” as artes do preparo do chá, e que as árvores são bastante comuns na região do semi-árido brasileiro, sendo também usadas como lenha.
Sentadas em roda no chão juntos com as outras pessoas, elas viram sobre uma toalha vermelha algumas outras ervas para fumo, além de quatro velas acesas em cima de pedaços do tronco da árvore, dois copos altos com água e alguns recipientes com o chá.
O mestre que conduzia a cerimônia disse as duas que não deveriam lutar contra os efeitos do chá, que caso a bebida não firmasse no estômago da primeira vez deveriam beber quantas vezes fosse necessário até que se acostumassem com ela.
Evelyn não gostava de maneira alguma de ficar indefesa, a idéia de que não poderia ter alguém de confiança na roda sem estar sob o efeito do chá a assustava. Mas Beth não queria ficar ali sozinha, insistiu que a amiga também passasse pela experiência e ela cedeu.
De tão relutante em ficar “desprotegida” Evelyn acabou não segurando o chá no estômago da primeira vez. O gosto extremamente desagradável não ajudou nem um pouco. Beth se entregou prontamente a experiência e já não teve problemas com a primeira dose.
As duas bebiam uma mistura da Jurema Preta e de Arruda da Síria. Evelyn vomitou mais duas vezes antes de finalmente se acostumar com o chá no estômago. A essa hora a cerimônia de invocação dos encantados já estava acontecendo.
Com maracá, um chocalho indígena, sinos de metal nobre e Toantes (uma espécie de cântico meio falado), as pessoas ao redor pareciam em transe.
Os encantados são as entidades que regem a mística em torno da crença, e estão presentes nas árvores de Jurema que são sempre muito antigas. Dizem que ali é onde se encontram as almas que já foram pessoas, as que nunca foram e algumas que vivem em um mundo onde nunca se transformaram em carne viva. Conta-se que aos pés da Jurema é possível ver as pessoas queridas que já se foram e também os anjos.
Já fazia quase uma hora do início e ninguém havia se levantado ou feito qualquer movimento. Uns quinze minutos depois de ingerir, Beth sussurrou para Evelyn que sentia uma forte dor de estômago, mas sabia que já não conseguiria mais vomitar. Logo depois ela viu a amiga de olhos fechados, sem nenhuma expressão no rosto. Parecia que apenas o corpo dela estava ali.
Evelyn ainda olhou para o céu mais umas duas vezes, tentando imaginar o que acontecia com as outras pessoas, antes de conseguir se entregar aos poderes do chá.
Primeiro veio a dor no estômago, depois uma forte ânsia, mas já não havia nada para colocar para fora. A dor parecia lhe consumir e olhando as pessoas ao redor, Evelyn achava que nunca mais sairia dali. Todos pareciam ter abandonado seus corpos, como Beth, estavam sentados. Alguns cantavam e tocavam os sinos e os maracás automaticamente. Aquele tempo pareceu uma eternidade.
Sentada tentando controlar a dor Evelyn começou a ver uma luz, ficou em dúvida se era alguém com lanterna que se aproximava, chegou a achar que seria o sol, mas era muito cedo.
De repente ela estava de pé e olhou ao redor achando que havia levantado em um impulso de dor, mas viu apenas idéias. A luz havia desaparecido e ela caminhava por um lugar escuro. Aos poucos a luz voltou a se aproximar e Evelyn viu vários pedaços da sua própria vida. Algumas vezes ela era pequena demais até para se lembrar do que tinha acontecido.
Viu os pais no dia do casamento deles, o pai andando de um lado para o outro em um lugar de paredes frias, depois um mulher de branco e o pai explodindo em alegria.
Também viu os dois chegando em casa com um bebê nos braços, sabia que era ela. As cenas foram mudando e ela foi crescendo nelas como um filme que passa apressado. A infância em Bruges, os verões na casa de campo dos tios, os anos no colégio interno, os primeiros anos em Paris e alguns dos lugares que visitou.
Ela sorriu quando a lembrança da primeira viagem ao Estados Unidos pareceu, esta lembrança pareceu maior que as outras, seguindo de coisas que aconteceram anos depois e em ordens diferentes. Nessa hora Evelyn notou que não era ela quem controlava as lembranças, mas não conseguiu entender o que estava acontecendo.
A misteriosa luz mostrou o canto preferido dela no apartamento que morava e desta vez era real. Ela foi até a poltrona que fica perto da janela e se sentou. Parecia estar de volta em casa, relaxou e dormiu.
Quando Evelyn acordou estava sentada no chão, exatamente na posição que se lembrava de ter ficado quando sentiu as fortes dores de estômago. Beth estava ao seu lado, já relaxada olhando para a amiga. Completamente tonta e ainda sentindo náuseas Evelyn acompanhou Beth até o alojamento e se deitou sem falar nada. Dormiu logo em seguida.
Na manhã seguinte Evelyn já se sentia melhor, estava até com um pouco de fome. Beth levantou cedo e foi procurar o mestre da roda da noite anterior. Ela voltou com algumas coisas para o café da manhã e as duas comeram no carro mesmo.
“Você ainda precisa fazer mais alguma coisa no sertão?” Beth perguntou.
“Não e estou ansiosa para dormir em uma cama confortável de um bom hotel” Evelyn respondeu.
Beth disse apenas “ótimo” e as duas embarcaram no carro e dirigiram até João Pessoa. A viagem era curta, já que Alhandra é perto do litoral.
No hotel Evelyn se apressou em tomar banho e pedir ao serviço de quarto um chá calmante para o estômago. Beth não subiu ao quarto com ela, disse que ia resolver uma coisa e saiu pela porta do hotel sem ao menos se registrar.
Algumas horas depois quando Beth voltou Evelyn já tinha caído no sono outra vez, desta vez mais tranquila e sem sentir enjôo.
Evelyn acordou com a amiga entrando no quarto e quis saber se ela havia conseguido resolver o que queria.
“Sim”, respondeu Beth.
Enquanto arrumavas as coisas Beth perguntou a Evelyn o que aconteceu durante o transe da noite anterior, ela respondeu, mas confessou que não entendeu direito o que a misteriosa luz queria mostrar.
Beth contou que assim que se entregou aos poderes do chá viu um grande fluxo de idéias passarem por ela. “É isto!” pensou Evelyn, a ligação das duas não era só de tutora-aprendiz no mundo da magia, nem só de amizade neste mundo, pois quando ela entrou no transe acabou “se levantando” bem no meio do fluxo de idéias do transe de Beth.
A amiga também contou que sentiu o poder da árvore e que havia se aconselhado com sábios encantados que se encontravam ao pé de uma antiga Jurema.
“E o que você vai fazer? Tem alguma relação com sua saída mais cedo?” Indagou Evelyn.
“Tem, sim. Os conselhos tem relação com muito do que conversamos nos últimos dias, e bem… Eu vou embora esta noite.”
Sem tocar mais no assunto as duas jantaram em um restaurante próximo ao hotel e Beth se despediu, indo direto para o aeroporto.