Algumas noites atrás eu estava em meu apartamento, quando sou surpreendido por uma ligação de Eleonor. Ela me dizia que era para eu ir rápido para a fazenda, pois seria necessária minha presença imediata. Esse tipo de comunicado sem detalhes sempre me deixa puto da vida, ainda mais que da última vez em que ela me ligou, foi para ir ao enterro de Stephany e de sua filhinha.
Liguei então para o hangar, disse que precisava do jatinho urgente e parti para o refúgio do clã. O piloto desta vez foi o Albert, um Ghoul de Franz e sendo o tal, não tive a menor preocupação com a viagem. Apenas cochilei e acordei com os “trancos”, assim que descemos na pista de terra da fazenda.
Quando Eleonor me viu, me deu um forte abraço, seguido de um beijo no rosto e de algumas palavras de boas vindas. Em seguida nos acomodamos na sala de estar e tão logo ela começou a me explicar, Franz também chegou. Ele estava na casa do mato, aquela que ele passa algumas noites às vezes e tão logo chegou, já complementou a história de Eleonor.
Georg gostaria de hibernar por pelo menos uns 200 anos, mas havia deixado claro que deveria ser acordado caso alguma “coisa especial” acontecesse com o mundo. Eu a princípio não tinha motivos até então para acordar meu mestre. No entanto, Eleonor no falou algo que me fez mudar de opinião.
Disse ela que Kieran estava muito doente e que sua vida, próxima dos 200 anos, estava próxima do fim. O mago inglês que tanto nos ajudou depois dos ocorridos na Prússia, que era minha última ligação com Suellen e que foi por tantos anos quem manteve a sanidade em nossas cabeças, merecia ter um último contato com Georg. Esta foi a conclusão que nós três tivemos naquela fria noite.
As criptas de hibernação foram construídas no século XIX, logo depois que Georg adquiriu as terras da fazenda. Elas ficam a aproximadamente 100 metros da superfície, no que inicialmente era uma caverna e que fora adaptada as nossas necessidades. Teve as paredes reforçadas, com o passar dos anos recebeu um gerador para garantir a iluminação e muitas fechaduras herméticas. Inclusive Kieran fora responsável por parte do sistema de segurança.

Preparamos o sangue, colhido de um touro que fora sacrificado na tarde antes de chegarmos, trocamos de roupa para algo mais próprio a espeleologia e nos embrenhamos pelas trilhas a fim de acordar nosso mestre. Cerca de 15 minutos de caminhada e chegamos a primeira porta. Ela possuía uma fechadura no qual só podia ser aberta por uma chave especial, que ficou sob a guarda de Franz.
Na sequencia fomos à sala do gerador, o ligamos facilmente depois de abastecê-lo com gasolina nova e iniciamos a descida. Muita umidade, muitos insetos e musgo decoravam aquele ecossistema que parecia ter vida própria. Algumas armadilhas precisaram ser desarmadas, até que finalmente chegamos à cripta principal. Lá nos deparamos com uma porta espessa de metal cuja combinação fora decifrada facilmente por Eleonor.
A cripta não possui muita decoração. No entanto, guardava alguns artefatos tidos como relíquias por Georg. Coisas como alguns diários, livros, joias e algumas armas e armaduras. Já o túmulo no qual Georg estava, possuía pouco mais de 2m de comprimento e 1m de largura. O que certamente era suficiente para aquele pequeno corpo com pouco mais de 1,65 de altura. Ao avistarmos o túmulo fora a minha vez de utilizar os meus segredos para abrir os cadeados que mantinham as correntes ao redor da tampa.
Nós três juntos removemos facilmente o pesado tampo de mármore, que de imediato liberou um pouco de gás que havia se criado no interior da tumba. A terra que cobria o corpo do velho vampiro, não nos permita ver suas feições, porém isso não era necessário. Haja vista, que sua presença podia ser sentida com muita intensidade e isso nos confortava.
Todos cortamos os pulsos e despejamos um pouco de nosso sangue sobre a terra. Franz falou as palavras necessárias e logo na sequencia era possível ver a terra começando a se mexer. Tratamos então de despejar rapidamente o sangue do touro, que garantiria a nutrição inicial de nosso mestre e aguardamos o seu despertar.
Aos poucos o seu corpo começou a surgir. Sua pele estava bem enrugada e pálida, quase transparente. Suas roupas estavam muito velhas em função da decomposição da terra e cerca de 2 minutos depois ele já estava sentado a nossa frente.
De inicio ele não abriu os olhos e ficou naquele momento de redescoberta do seu corpo físico. Estalou algumas juntas, tocou seu peito e depois sua cabeça. Foi quando começou a abrir os olhos e com uma das mãos a frente, para se proteger da luz, disse suas primeiras palavras:
– Franz meu filho bastardo, tu podias ao menos ter me trazido sangue humano… Ferdinand e Elenor, temos muito que conversar. Pelo pouco que li em vosso sangue, estes últimos 100 anos foram complicados para meus filhos. Por hora, me ajudem a sair daqui, trouxeram vestimentas novas, espero?
A sensação de rever meu mestre era uma mistura de muitos fatores bons e ruins, algo que não posso explicar em palavras. Mesmo por que existe muito mais coisas além do fato de apenas ele ter sido acordado. Vocês já tiveram uma prévia da festa que fui com ele noutra noite e podem esperar muitas para as próximas que seguirão…