“Pela estrada a fora eu vou bem sozinha…”

Poucas horas depois eu estava em uma das florestas próximas a cidade. Aquele ar fresco, úmido e puro poderia excitar meus pulmões caso eu ainda respirasse, mas diferente disso apenas molhou um pouco a minha jaqueta. – Será que o delegado havia me passado as coordenadas certas do lugar? – Pensei comigo. Porém, não tardou e logo em seguida já pude ver aquela escultura em forma de casa.

Ao longo do caminho muitos animais tentavam se esquivar da luz do farol ou se sentiam incomodados pelo tradicional e robusto ronco do motor de minha Harley. Foi assim entre eles e as pequenas poças de lama, que finalmente me deparei com o majestoso ao portão de entrada. Lacrado com uma grande corrente enferrujada e horrorosamente decorado com várias fitas listradas pretas e amarelas da pericia da policia.

Através das grades portão vi o restante da casa, que estava vazia e muito escura, mas meus sentidos afirmavam com pouca precisão que havia alguma movimentação sobrenatural pelo lugar. Sabe aquela sensação de há alguém te observando? Pois bem… Mesmo assim achei um lugar longe da entrada para minha moto e tratei de escalar o muro em busca de ao menos uma visão ampliada do local.

Novamente não havia nada que chamasse a atenção de minha visão aguçada, porém em função de uma melhor proteção, resolvi ocultar a moto e fazer contato com algum mamífero ao meu redor. Por sorte não demorou até que avistei um pequeno Callitrichinae em meio às folhas de uma Ficus clusiifolia. Aliás, ele quase fugiu ao me ver, mas consegui ser mais rápido. Com o macio e pequenino animalzinho em minhas mãos eu me concentrei por alguns instantes, ate que finalmente nos sincronizamos.

O poder de telepatia com animais, ainda mais com os menores e menos inteligentes, é sempre difícil de usar, mas entre as memórias do curioso sagui havia a imagem de algumas pessoas que haviam passado a pouco pelo tal lugar. Infelizmente ele não foi muito “amigo” e correu tão logo pode. – Tudo bem isso já me basta. – Era o que havia em minha cabeça, quando saltei os muros do lugar e por azar aterrissei próximo a uma poça de lama que respingou sobre minhas já castigadas botas.

O jardim estava abandonado, porém ainda muito bonito. Não havia câmera, sensores ou qualquer outro tipo de rastreador pelo lugar, no entanto tudo estava muito bem fechado com o portão. Obviamente virar névoa seria a melhor opção de entrada, se não fosse minha intuição me levar até uma janela entreaberta e que insistia em bater contra uma das paredes do lugar.

Peguei impulso e na primeira vez não cheguei nem perto do batente, no entanto sou brasileiro e ao insistir de segunda. Com um pouco mais de força quase atravesso a janela, caindo dentro do que parecia ser um quarto de hospedes no segundo pavimento. Logo de inicio muita sujeira, penas e pequenos ganhos provavelmente trazidos pelo vento ou pequenos animais. Nesse instante eu já não sentia mais ninguém me observando e com mais curiosidade que o normal investiguei todos os cantos da casa.

Estava tudo revirado, muitas marcas de calçados, muita poeira e se não fossem as marcas de sangue entre a suíte e os corredores, eu diria que o lugar era apenas abandonado. Muitas peças de decoração que me pareceram caras e até mesmo um bonito televisor de ultima geração ainda decoravam muitos dos ambientes. Roupas novas e limpas em um dos armários, detalhes que no geral denotavam um ambiente muito bem cuidado e harmonioso, apesar de tudo. Foi ao observar estes detalhes que encontrei uma foto onde o casal posava em sua sala de estar ao lado do tal Totem.

Porém abruptamente toda a calmaria deu lugar a uma intensa movimentação de vários tipos de animais, que inclusive me fez tapar os ouvidos, cousa que dificilmente preciso fazer. Na sequencia, uma inquietante angustia tomava conta de mim, quando ouço barulho de vidros estilhaçando e sou agredido de supetão pelas costas por algum tipo de objeto pesado. Por sorte ele não me machucou, parecia algum tipo de pedra ou mineral, no qual não dei atenção, pois preferi me movimentar em direção à origem do arremesso.

Aproveitei o espaço aberto na janela e com as pistolas em punho atirei contra um vulto que se mexia próximo ao ofurô do quintal. Depois disso, foram muitos os saltos e largas passadas seguidas de mais tiros até que finalmente a figura misteriosa cai ao chão. Reviro o corpo que havia se esvaído de bruços e para o meu azar era apenas uma garota, que provavelmente estava brincando pelo lugar…

Confesso que de inicio tive pena, porém com ela em meus braços bastaram alguns segundo para que sua constituição a regenerasse e com uma espécie de manobras quase ninja e inesperadas, ela se desvencilhou de mim. Muito rapidamente a figura sobrenatural parou em cima do muro de mais de 5 metros, mas antes de fugir me disse em claro e bom tom: – A ordem dos “fulanos de tal” não quer sanguessugas envolvidos nisso. – Em seguida, antes que eu pudesse ao menos lhe retrucar, ela sumiu sem deixar rastros.

Volto para a moto, pego uma mochila e junto o máximo de evidências que me são cabíveis naquele instante. Ainda por lá junto alguns ingredientes e faço uma espécie de lacre em uma das paredes com o intuito de que mais ninguém entre ali até meu retorno. Horas depois e já em casa, entro em contato com Carlos, que de prontidão me atende. Ele ouve atentamente sobre tudo e sem pestanejar promete vir até mim no próximo avião…