Sensitiva, a história de Aidê – pt1

“Tu estás ao centro, Alfredo de um lado e eu do outro. Estamos amarrados a três cadeiras presas ao chão e há muita fumaça, tem fogo em algum lugar… Tem alguém chegando… ”

Era início do século XX e eu havia perdido completamente a noção dos dias e das noites. Confesso, tive diversas experiências inusitadas ao longo das quatro décadas que vivi no Rio de Janeiro. Porém, havia situações onde eu mal lembrava onde havia dormido ou muito menos aonde acordava.

Foi numas destas idas e vindas que conheci Aidê. Filha de um ex-escravo com uma espanhola. Cuja combinação não seria outra se não alguém de traços marcantes e temperamento quente.

Lembro-me de ter sentido alguma cousa me empurrando e ao abrir os olhos entendi que alguém me cutucava com uma vassoura. ”Tá vivo” ela perguntou. “Claro que não” respondi prontamente. Fato que a fez soltar uma gargalhada gostosa, daquelas que até assustam de tão espontânea. Cheguei a recuar e ao perceber minha reação ela se fechou, disse um tímido “desculpe” e voltou a varrer em outro canto.

– Hey, sabes que horas são minha querida?

– São quase duas da tarde sinhô.

– Ah raios! Tens certeza que é tão cedo ainda?

Ela me olhou estranho e ainda estava digerindo o fato de ter me encontrado usando apenas uma calça e ao chão do quarto de alimentos.

– Calma,  é que trabalho a noite e durmo de dia…

Tentei disfarçar, mas ela não ficou muito convencida. Ela inclusive se aproximou e soltou:

– Desculpe-me o comentário sinhô, mas tu precisas de um bom banho e de um bom prato de feijão com arroz. Bebeu tanto, que tá até pálido… Deixa que eu vou ali no quarto ver se o patrão já acordou e trago uma camisa.

Sem que eu pudesse dizer que não precisava ela largou a vassoura e foi-se correndo para outro cômodo. Foi neste momento que me lembrei da noite anterior e que eu estava na casa de um conhecido, chamado Alfredo. Na verdade era um ghoul de Eleonor e que havia me convidado para uma “festinha” na noite anterior. “Coitado, devia achar que eu a traria para que tirasse uma casquinha” Foi o meu pensamento.

Depois de alguns minutos ouvi uma movimentação pelo lugar e surgia a minha frente uma garota loira usando apenas as calçolas. Ela protegia os seios com uma das mãos e na outra trazia o que pareciam ser seus outros pertences. Quando me viu ela sorriu e disse preocupada: “Meus pais vão me matar Fê”. Depois colocou um tipo de vestido e foi-se para outra parte da casa.

Logo depois estampando um sorriso de orelha a orelha vinha Aidê com uma camisa na mão.

– Sinhô, não sei o que fizeram na noite passada, mas tá parecendo que o patrão tá morto de morte morrida.

– Como assim?

– Eu entrei no quarto do patrão e ele tá sentado amuado num canto. A miúda tava na cama. Tomou um belo susto quando entrei e saiu correndo.

– Calma, que vou lá ver! Espera aqui e se ver mais alguém na casa me chama!

Fui para o quarto e o infeliz estava sentado no chão e pelado. A respiração estava muito fraca, mas a julgar pelas garrafas de cachaça, tinha tomado um porre daqueles. Coloque-o na cama e voltei para a sala. Onde por sorte ninguém havia aberto nenhuma janela ou porta

Aidê estava sentada numa cadeira próxima a mesa e tomava um copo d’água. Quando me viu foi logo perguntando:

– O patrão se foi?

– Calma ele está bem, só bebeu um pouco além da conta ontem…

– Ai minha nossa senhora ainda bem!

Com o intuito de acamá-la me aproximei e coloquei uma das mãos sobre seu ombro. Foi quando inesperadamente ela se arrepiou inteira e baixou a cabeça por alguns instantes como se estivesse sentindo algo. Cerca de uns 5 segundos depois ela balançou a cabeça, empurrou rapidamente a cadeira para trás e se levantou. Fixamente ela me observou por alguns instantes e disse antes de desmaiar:

“Tu estás ao centro, Alfredo de um lado e eu do outro. Estamos amarrados a três cadeiras presas ao chão e há muita fumaça, tem fogo em algum lugar… Tem alguém chegando… ”

Ferdinand W. di Vittore

Nascido em 1827, foi transformado em vampiro com 25 anos em 1852, enquanto ainda vivia na pequena cidade de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, Santa Catarina – Brasil.

Criou este site em 2008 com o objetivo de divulgar as ideias do seu clã, instituição fraternal em que ele, seu mestre e alguns amigos mais chegados pertencem. Além disso ele também publica aqui e no vampir.com.br histórias do seu cotidiano. Está quase sempre bem humorado e nos últimos anos possui um projeto chamado “Os escolhidos” em parceria com Hector. No qual eles “ajudam” a polícia e a sociedade na resolução de crimes hediondos.

Ferdinand também ocupa suas noites com a escrita e recentemente publicou um livro com suas memórias: https://my.w.tt/UiNb/gz325qd62s

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5 Resultados

  1. Aeron disse:

    Bom, “isto” foi inusitado…
    Mas eu acho que quando se lê relatos de alguém com mais de 400 anos, é de se esperar que existam surpresas.

  2. Lella Moraiss disse:

    Terá continuação… Tenho certeza. !

  3. Lella Moraiss disse:

    Esses lances de “sensibilidade” é muito ruim, ainda mais quando não se sabe controlar… Ela sabe que é sensitiva ? Ou descobrirá isso na próxima história? Ou melhor.. Se tiver a próxima…

  4. Allice disse:

    Continuação.. Sinto sua falta…

  5. Sellene Bernard disse:

    Curiosidade a mil!!!