Já tinha ouvido falar de pessoas que são sensitivas, mas Aidê havia me oferecido à primeira experiência prática sobre o assunto. Na verdade com o passar do tempo ela me proporcionou outras experiências inusitadas, mas cada qual ao seu tempo.

Fiquei estático por alguns instantes e refletindo sobre o que ela havia dito, mas no primeiro estalo de realidade voltei a si e confortei seu corpo quente no sofá da sala. Ela estava tão mole que parecia estar num coma profundo. Tanto que nem mesmo alguns tapas na cara a acordaram. Confesso, naquele momento eu queria muito ir para meu refugio, mas ainda era algo em torno de meio dia e seria impossível eu sair à rua.

Voltei algumas vezes ao quarto do Alfredo, mas ele também estava desfalecido e só me restava aguardar o passar das horas. Dei uma geral no lugar e não havia mais ninguém além de nós. Meu único companheiro durante aquele dia foi um rádio e as notícias foram praticamente todas sobre a guerra na Europa. Naquela época havia o medo de que a guerra chegasse até o Rio e se hoje fazem tantas especulações imagine nos anos 40, quando as notícias ainda levavam dias para chegar.

Ainda era dia, quando alguém bateu a porta de entrada afoitamente. Bateram tanto e com tanta força que às pauladas despertaram Aidê.  Ela acordou assustada e perdida, mas sinalizei para que se acalmasse e fui atender a porta. Fiquei atrás dela, ouvi duas ou três vozes do outro lado, mas resisti a tentação de abri-la.

– Nós sabes que vocês estão ai. Abram logo seus sem vergonhas!

Gritou alguém do lado de fora. Aidê me olhava preocupada e eu sinalizava para que ela ficasse quieta. Nisso surgiu Alfredo, todo abarrotado, cambaleado  e vestindo uma camisa.

– Já vai… Já vai…

Gritou ele antes de me ver. Fiquei puto da vida, mas ele praticamente ignorou minha presença e se atracou na fechadura. Ele abriu apenas um pouco o que já foi suficiente para inundar parte da sala com muita luz e me segou por alguns instantes.

– Quem é?

– Você é Alfredo Laerte de Almeida?

– Sim, por quê?

Foi tudo o que pude ouvir antes de começar o maior quebra pau na entrada da casa. Aidê fugiu para a cozinha e eu ali tentando voltar a ver o mínimo que fosse. Eu torcia para que a briga ficasse do lado de fora, mas assim que Alfredo foi facilmente contido alguém disse:

– Seu putanheiro filho de uma jumenta, sem vergonha. Não vai ficar barato não. O doutor Coronel quer o teu fígado seu traste.

Depois de tal exclamação repleta de razão eles resolveram entrar. Tentei argumentar, falei que estava com os olhos machucados, mas eles nem quiseram conversa. Vieram os três para cima de mim. Resisti o quanto pude até levar uma bela paulada na nuca e vi estrelas. Capotei. Apaguei.