Ferdinand segurava e admirava uma adaga de desenho simples, mas muito bem entalhada e afiadíssima, com pedrarias antigas de tamanho mediano. Ficou ali, um tempo concentrado até que enfim começou a rodar a lâmina pelos dedos. Arremessando certeiramente num pedaço maior de carne do corpo já falecido da minha última e em pedaços, vítima.

– Vejo que tens andado ocupado cara. Muitos trabalhos Mr. Reaper?

– Trabalhos, vítimas, pessoas e seres sobrenaturais afogados em rancor querendo a doce vingança ou apenas saciar a vontade de ver o sofrimento alheio. Escolha a definição que mais te agrada, mas digo que todas vão te levar para o mesmo caminho.

Apesar de ter este trabalho e a forma fácil como me vem os ‘alimentos’, eu não preciso me alimentar com frequência, consigo ficar sem sangue por meses e mesmo assim não perco meu poder e não viro sapo também. Quando a necessidade de tomar sangue aparece eu estou geralmente trabalhando e assim aproveito para me alimentar e é o que devem saber. Só!

– Alguns dos meus seguidores deixaram claro que tem medo de cruzar o teu caminho. Pedem a proteção divina para que isso não aconteça.

Sim o vampiro não conseguiu conter a pequena risada e eu não consegui conter o fato de que a proteção divina que vocês humanos tanto pedem e anseiam vai chegar a cavalo e digo mais, a mesma vai chegar para aqueles que se mantiveram fiéis as então palavras claras do Deus, o ser divino tão aclamado em orações durante gerações por todos vocês crentes do Pai celestial. Mas não se engane você que ajoelha e pede sabedoria e proteção de um lado e com o veneno da língua traiçoeira, cospe maldades sobre o próximo. Eu posso garantir que só esse pequeno fato vai te fazer descer alguns andares e dar um abraço bem apertado em um cara de olhos vermelhos. Que tal começar a repensar melhor as tuas atitudes humanas deploráveis?

– Mal sabem eles que cruzam com entidades em plena luz do dia. Talvez troquem até saudações e algumas palavras sem se dar conta, assim como alguns caem nos encantos noturnos e soturnos sedutores de seres como você Ferdinand, sem saber o destino que lhes aguarda.

O vampiro sorriu sarcástico fumando um charuto Gurkha Black Dragon que apenas os mais ricos no mundo tem o prazer de se afogar em sua fumaça densa e atrativa, enquanto eu terminava de limpar meus instrumentos ensanguentados e brilhantes de que tanto tenho orgulho, em cima da minha mesa organizada de ‘cirurgia’.

Ás vezes eu me esqueço que devo conter meu temperamento, afinal e apesar dos meus poderes, as entidades e vampiros são aliados desde uma era remota e no começo de tudo. Seres amaldiçoados e contratados pelo submundo devem manter a união, afinal no fim somos todos iguais e se você começar a conectar fatos e estudos sobre nós ao invés de fantasiar com uma noite trocando saliva e erotismo conosco, vais saber muito sobre religião, maldições, formações políticas e muitos detalhes para engrandecer sua sabedoria sobre algo além do óbvio.

– Sabe Mr. tenho um trabalho para te oferecer…

– Imaginei que não tivesse vindo até aqui para admirar minha beleza ruiva e meus olhos verdes.

– Se fosse uma ruiva de olhos verdes talvez. Porém um cara ruivo não faz nem de longe o meu tipo, ainda mais alguém que consegue ficar cara a cara comigo sem precisar de um banquinho.

Gosto da sagacidade sarcástica e honesta dele, digamos que alivia meu lado sombrio e malicioso que agora precisava de um cigarro forte e fedido para iniciar uma conversa de negócios.

– Charutos não são sua praia Mr. ?

– Charutos, vinho branco e romantismo não são a minha praia. Mas se me oferecer um bom e velho Malboro e quem sabe uma noite em algum puteiro digno com pedaços refinados de carne, ai já é outra história. Vais ter um companheiro para toda eternidade ou até o mundo acabar.

– O Malboro eu posso oferecer, porém o puteiro refinado…

Eu me esqueço que o vampiro possui uma companheira. Lembro-me do pouco que falou sobre sua vida amorosa e esqueço que é um ser que mantém compromissos fiéis até que se prove o contrário, apesar das tiradas sexuais e sarcásticas para aliviar a tensão.

Dei alguns tragos e sem ao menos esperar vi que ele jogava em cima da velha mesa de centro uma foto antiga de alguém, um alguém que me era conhecido e que logo seria mais um desconhecido na história. Com as minhas mãos ainda machadas com um pouco do sangue do pobre desafortunado que agora parecia um quebra-cabeças sentado em uma cadeira, eu peguei a foto e vi que esse trabalho seria muito interessante.

– E então?…

– Sr. Wulffdert , acabou de me relembrar de como o mundo é pequeno.

– O conhece e eu sei disso Mr. o cara fez umas atrocidades contra o mundo aqui e o mundo que vivemos…

– Poupe as palavras senhor vampiro e me considere dentro. Apesar dos pesares eu também tenho minhas próprias batalhas para lutar e vinganças para saciar. Você apenas acabou de me relembrar de uma delas, assim como uma conhecida tua me relembrou e me ajudou em outra.

– Como ela está?

– Linda como sempre, sarcástica como sempre e buscando vingança contra alguns humanos curiosos. Mas isto é entre eu e ela. Desculpe te decepcionar.

– Sem problemas Mr., conheço a sagacidade dentro dela e sei muito bem que vinganças levam a muitos lugares e sentimentos diferenciados. Como dizem? A vingança é um prato que se come frio…

– Muito frio. Frio o suficiente para a mente humana esquecer e por fim tudo não passar de uma surpresa desagradável.

Por uma dessas idiossincrasias do destino ou coincidências que ás vezes acontecem, Ferdinand e eu temos amizades em comum e para melhorar vamos atrás de alguém que fez alguma merda próxima ou na mesma esquina em que a gente e agora seria apagado, claro desfigurado e agonizado antes, mas por fim apagado. Mais um vai entrar para minha conta de almas levadas para povoar o abismo de fogo.

– Planos?

– Com todos meus séculos nesta Terra de ninguém, os planos são para mim, o maior e mais precioso instrumento. Não se preocupe Ferdinand eu possuo vários e garanto sucesso em todos.

– Um brinde a nossa parceria?

– Tenho A e AB guardados e agora tenho O negativo sentado naquela cadeira definhando. Qual prefere?
– O negativo, sangue fresco sempre!

– Sim claro, ao gosto do freguês. Eu também vou de O negativo fresco. Gosto das coisas frescas sabe, como sangue, carne, medo e agonia. Trazem um sabor refinado ao paladar.

– Você é insano e eu gosto disso Mister Reaper!

– A nós, seres malditos e insanos!

 

Vejo vocês em breve.
Ass: The Reaper