À volta para o Brasil depois de longos e gélidos anos vivendo fora, não foi algo que eu possa chamar de tranquilidade. Logo no início tivemos a readaptação com a língua, depois a descoberta de alguns novos comportamentos brasileiros e na sequencia outros problemas, que somente um lugar sem muitas leis ou tradições pode te proporcionar.

Eu já era um vampiro há quase 50 anos e isso deixava meu mestre muito contente. Havíamos passado os anos iniciais de minha transformação de uma forma até que plausível. No entanto, aqueles malditos pesadelos, relacionados a tudo o que havia acontecido comigo na Europa, torturavam meu sono. Para se ter ideia as imagens vinham a minha cabeça como uma obra sarcástica e macabra, que nem mesmo meu amigo doutor poderia arquitetar.

Lembro-me até que muitos me falavam para eu dar um passo adiante e Franz insistia nos bacanais regados a muitas bebidas, meretrizes ou drogas. Contudo, eu confesso que nem mesmo a melhor das prostitutas, poderia mudar minhas ideias repletas de pessimismos, controvérsias e saudades.

Foi quando Eleonor, percebendo minha carência afetiva, veio até mim na tentativa de amenizar as dores das pedras em minhas botas. De início ela surgiu com um papo de irmã, porém aos poucos ela mostrou um lado que até então eu apenas ouvia falar nas pomposas e sarcásticas palavras ditas pelo Franz. Nesta época, as idas e vindas amorosas dos dois havia terminado, porém na verdade acredito eu que houve uma espécie de enjoo mútuo. Cousa de quem já havia passado mais de 100 anos entre momentos frios, por vezes calientes, muito libidinosos e quase sempre confusos.

Pode ser que todo aquele rolo entre os dois tenha proporcionado alguns pensamentos profanos em mim, haja vista os frequentes detalhes sórdidos que eu ouvi. Porém não nego que sempre tive uma queda por Eleonor. Ainda mais naquele instante,onde eu estava com o coração em pedaços e até demorei para perceber suas investidas. Quando, numa noite qualquer enquanto estávamos a sós na fazenda, ela me veio com um papo diferente.

Não me lembro das roupas, do cenário, do contexto e de quaisquer outros detalhes, que como vocês bem sabem sempre me vem em excesso a cabeça. Obviamente por que depois de algumas palavras muito bem trocadas, eu só conseguia me concentrar naqueles lábios: muito vermelhos e deliciosamente carnudos.

Provavelmente relembramos de nosso passado compartilhado, fomos juntos além dos interesses mundanos e criamos uma atmosfera de desejos, que se sublimaram em gostosos beijos e amassos…

Naquela noite iniciava mais uma etapa de minha não vida e algo que certamente nunca esquecer. Principalmente pelo fato, de ter sido quando comecei a deixar a ignorante inocência humana de lado.