Muito se fala sobre os Lycan, Licantropo ou vulgarmente Lobisomem. Ferdinand, às vezes me chama de peludo, mas tendo em vista nossa relação, isso deve ser algo carinhoso?! Dias atrás ele me procurou para conversarmos sobre meu legado e aqui seguem algumas palavras sobre como tudo começou para mim. Provavelmente o vampiro vai deixar isso mais legível/amistoso para vocês. 

Por hora, podem me chamar de Carlos e eu já aparecei aqui no blog em diversos momentos, como na história do Totem desaparecido.

Era uma manhã qualquer do sec. XIX quando eu estava cuidando do gado na fazenda. Aquele não era meu trabalho principal e o fazia porque meus pais haviam me obrigado.

A função até que era simples. Eu precisava conduzir aquelas duas dúzias de cabeças da pastagem para o confinamento, lugar onde eles ganham peso para o abate. O problema é que eu sempre fui um cara de poucas palavras, independente de serem humanos ou animais me é sempre um esforço demasiado ter de proferir palavras, comandos ou lidar com seres vivos.

Do fundo do meu coração: Eu tava puto! Todo o trabalho desde os últimos acontecimentos haviam recaído sobre mim e durante um xingamento mental e outro eu ouvi alguém reclamando… Olhei para os lados na procura de alguém e não havia nenhuma alma viva… Depois de alguns segundos eu me distrair e ouvi uma outra voz diferente da anterior, que também reclamava e deixava claro que odiava estar ali.

Um calafrio percorreu minha espinha ao mesmo tempo em que eu olhava para os lados e não via ninguém. Mais vozes, mais reclamações… Alguns pareciam gritos ou gemidos e todos me tocavam a alma numa forma completamente nova de interação social. Parte telepática, parte espiritual… parte sobrenatural.

Num ato de desespero e desconforto saltei do cavalo. Desengonçado e tropeçando nas canelas eu corri até à casinha onde a mãe tirava leite de algumas vacas.

– O que foi seu loco? – Disse ela mostrando surpresa ao me ver.

– Não sei, acho que tô loco mesmo mãe!

– Para de me estrovar e vai cuidar das tua vida!

Logo pela manhã a mãe não era muito amistosa e com cara de bunda, voltei para o pasto. Não ouvi mais nenhuma voz naquele dia e tudo foi normal até a noite.

Jantei e fui para o celeiro onde passei parte da madrugada enfiado em alguns livros. Dormi sem querer e acordei perto das 3h com meu próprio ronco. Levantei e quando me alonguei senti novamente aquele maldito calafrio que subiu instantaneamente dos pés a cabeça.

Sentei no sofá e senti as mãos tremendo. Um suor inesperado tomou conta do meu pescoço e quando dei por mim estava todo encharcado. Tentei correr para casa mas os movimentos estavam presos. Consegui chegar até a porta onde me deitei nos degraus. Durante alguns segundos eu percebi o céu mais iluminado, as estrelas machucavam minhas retinas, mas a sensação ao mesmo tempo era singular.

Mas o conforto passou rápido e lá estava eu estremecendo até os ossos feito bambu no poral…vendaval. Por diversos momentos senti meu coração querendo sair pela boca. O calor tomava conta do meu corpo e as glândulas cupiam suor como cachoeiras em dia de temporal. Os mais inconvenientes sons ecoavam em meus ouvidos e eu estava no ponto de suplicar pela morte quando percebi algo vindo em minha direção.

Não era humano, nem bicho. Tão pouco possua uma forma definida, estava mais para um vento e me envolveu. Penetrou por todos os meus poros se tornando parte de mim… Depois em meio a diversas contrações e estalos senti várias partes do corpo se modificarem. Meus músculos cresceram, os ossos pareciam pesados como pedra. Veio a sensação de que eu precisava muito cuspir no mundo todas as coisas que havia guardado para mim em todos os meus anos de existência…

Tossi várias vezes, cuspi muita saliva e sangue…

– Auuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Tal uivo limpou minha garganta e minha alma. Senti que jogava para fora todas as coisas ruins que eu havia acumulado até aquele momento de minha existência. Estalos me indicaram movimentação e ao primeiro sinal de luzes disparei para a mata fechada. Onde me escondi e dormi até que os primeiros raios de sol me acordassem, deixando na noite a forma forma lycan.