Algumas horas se passaram, tive tempo de analisar tudo o que havia dentro daquela sala. Pela janela percebi que estava a algumas horas do amanhecer e imaginava alguma maneira de sair daquele lugar. Estava apreensiva pelo que poderia acontecer em seguida. Até que finalmente alguém abria a porta. Mas, de súbito paralisei e meus instintos farejaram algo familiar como se eu já conhecesse quem entrava. Virei-me devagar. Ela me observava como se pudesse ver-me por dentro.

Durante alguns minutos permanecemos assim, olhando uma para a outra.

-Sente-se Rebecca… Humm, agora entendo porque fui deixada para trás. É muito mais bonita pessoalmente.

Olhei-a com desdém. Também era uma vampira tão bonita quanto eu, porém mais velha e mais forte. Era um pouco mais alta, tinha os cabelos longos e loiros, em contraste com sua pele morena- pálida.  Mas, o que queria comigo, afinal?

– Não sou uma inimiga. Queria apenas vê-la. Logo vai poder sair daqui e seguir seu rumo. Assim, como irei seguir o meu. Mas, antes preciso lhe falar algumas coisas. O mais engraçado, é que tudo o que sobrou da minha vida está fragmentado em você. Todas as minhas lembranças. Toda a vida que eu não vivi. Mas, eu tive sorte ao final… Quando você nasceu, eu já estava transformada, Erner era “amigo” de sua família, e eu também era, sim, conheci seus pais Rebecca. Mas, ele imaginou todo o seu futuro e ficou obcecado por você. Ele era assim, sua possessividade o fazia manipular suas vitimas ao máximo até tê-las totalmente sobre seu domínio. Mas, com você foi diferente, ele te acompanhou desde sempre, teve você nos braços ainda criança, e então, cansou-se e me descartou. De certa forma ele te amou.

– Eu já sei de tudo isso. Olha, eu não tenho culpa do que possa ter te acontecido.

-Não, não tem. Por isso precisava olhar nos seus olhos. Eu não o amava como você o amou, mas mesmo assim, não pude fazer o que fez. Eu vim te agradecer. Pois, deu aquele homem o seu destino merecido.

-Já acabou? Já falou o que precisava?

– Espero que compreenda e me desculpe pela maneira que lhe trouxe até aqui.

Dei uma risada nervosa, olhei para aquela que eu conhecia como “Sophie”, e sai daquele lugar o mais rápido que pude. Tudo aquilo era estupidamente desnecessário. Ela veio me agradecer pelo sofrimento que causei a quem mais amei, mesmo com tudo o que havia me feito, e aquilo mesmo que eu não quisesse, me dilacerava e doía.